Angeline
Por Tânia Souza
Ah, os poderes da mente, do medo e do pavor cercam o homem com tais tentáculos que até mesmo o inferno toma forma se o homem assim o crer. Eis o que dizia-me, exaltado, o jovem estudioso que fazia-me companhia. Meus olhos estavam perdidos na paisagem alagada, falávamos ainda pouco de um vizinho, conterrâneo que, crendo no sobrenatural, fora tomado pela insanidade. Sim, a mente tem poderes desconhecidos, mas desconhecidos são também os mistérios e as sombras do universo. Ele pareceu perturbar-se com estas palavras, engolindo o chá e fitando a biblioteca, constrangido com minha resposta. Ah, a juventude! Sim, me vejo nos fios escuros deste doutor menino. Quando jovens, nada nos impede, nada nos limita a não ser a força da vontade, até que n’algum momento nefasto, as sombras irradiam-se, cercam-nos e delas jamais nos recuperamos.
A chuva havia chegado e com ela, os demônios bem o sabem, meus pesadelos. Quando o céu desaba, meus ossos doem como se lâminas estivessem brincando nas sofridas articulações. A chuva pela qual estive esperando finalmente caíra, feroz no início, a tempestade se foi levando consigo parte da verde paisagem. Mas, como sempre que chove torrencialmente por horas, o nível do rio subia a cada minuto e, com o corpo cansado e tomado pelo peso dos anos, só me restara ver a chuva caindo, impedido de sair. Portanto, eis como chegara até aquele instante, quase sem assunto perante a vivacidade da juventude. Num estado semi-adormecido, perdido na modorra do dia, meus pensamentos voltaram-se há um dia fatídico, quando era ainda jovem e cria que o mundo era meu. Um mundo de lascívia e perdição que tornara-se o caminho para a personificação do mais hediondo mal.
Ofertei-lhe, assim, àquele incrédulo cientista que o destino fizera meu bisneto, um pedaço de minha história, aquela da qual jamais falara, entanto, estivera sempre comigo. Ofertei-lhe um retrato de Angeline.