Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. A garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir. A jovem, conhecida por muitos como a Última, estava encolhida dentro do poncho de lã, tremendo de frio, e ergueu os olhos assustados:
— Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...— Os lábios tremiam, apesar do capuz cobrindo os cabelos.
— Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai fora. O que aconteceu?
— Os olhos são azuis, os olhos da morte... O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...— A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis, levando-a para dentro.
— Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom.— Enquanto falava, padre Bernardo a conduziu para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde uma caneca de louça, encheu-se de chá aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.
Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:
— Eu vi o mal, ele tem olhos azuis...— A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.
