Instinto
Tânia Souza
Era um vampiro clássico. Nascera em um ano medievo qualquer e desde então, entre caminhos de sombras e lamentos, fizera seu destino. Andar suave. Um dos predadores mais perigosos do mundo velho, porquanto refinado e, sob o fino verniz do charme e da elegância, ardia em lasciva sedução para então, desferir o golpe, o ataque letal consumindo em suspiros uma suave vítima. Moçoilas, órfãos desamparados, mancebos imprudentes. Quando a caça humana se tornava escassa, caçava entre os animais inferiores, mas sofria um resquício de fome, gostava da essência febril, dilacerar a carne tenra e o frenesi da vida esvaindo-se ao seu beijo frio.
II
Assim fora por muitos séculos de morte e eis que a noite o encontra caminhando às escuras. Em Londres, entre vielas sombrias, vultos obscuros e um cheiro rançoso de morte, ele caminhava. E sentia a força da fome. Muita fome. No entanto, a fera oculta rugia, pois sua sede não dependia apenas dele para ser saciada.
Por varias noites sentira as agulhadas ferinas da ânsia, da sede, mas nada pudera satisfazê-lo. No entanto, aquela noite seria diferente. Os passos de uma jovem arfante ecoavam, estraçalhando o silêncio e, por alguns instantes, os olhos dela voltavam-se temerosos ao seu redor. Sentia a presença maléfica do caçador no negrume da noite e a densidade do medo a sufocava.