Mostrando postagens com marcador Vampiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vampiros. Mostrar todas as postagens

Instinto

Instinto 

Tânia Souza

Era um vampiro clássico. Nascera em um ano medievo qualquer e desde então, entre caminhos de sombras e lamentos, fizera seu destino. Andar suave. Um dos predadores mais perigosos do mundo velho, porquanto refinado e, sob o fino verniz do charme e da elegância, ardia em lasciva sedução para então, desferir o golpe, o ataque letal consumindo em suspiros uma suave vítima. Moçoilas, órfãos desamparados, mancebos imprudentes. Quando a caça humana se tornava escassa, caçava entre os animais inferiores, mas sofria um resquício de fome, gostava da essência febril, dilacerar a carne tenra e o frenesi da vida esvaindo-se ao seu beijo frio.

II

Assim fora por muitos séculos de morte e eis que a noite o encontra caminhando às escuras. Em Londres, entre vielas sombrias, vultos obscuros e um cheiro rançoso de morte, ele caminhava. E sentia a força da fome. Muita fome. No entanto, a fera oculta rugia, pois sua sede não dependia apenas dele para ser saciada.

Por varias noites sentira as agulhadas ferinas da ânsia, da sede, mas nada pudera satisfazê-lo. No entanto, aquela noite seria diferente. Os passos de uma jovem arfante ecoavam, estraçalhando o silêncio e, por alguns instantes, os olhos dela voltavam-se temerosos ao seu redor. Sentia a presença maléfica do caçador no negrume da noite e a densidade do medo a sufocava.


Insana paixão


Insana paixão
Tânia Souza



Ele estava morto, eu sabia, pois com mãos trêmulas cortei-lhe os pulsos, seguindo com os dedos as veias que apareceram enquanto ele fazia força para libertar-se; sabia com o gosto que ficara em meus lábios depois de beijar aquelas mãos que tanto amei, sabia quando lembrava-me do cheiro de sua pele enquanto minhas lágrimas misturaram-se ao sangue que derramava-se. Sim, estava morto. Eu o matei.


Filho da escuridão








Kjærlighet og smerte - Edvard Munch
 Kjærlighet og smerte - Edvard Munch



Este conto foi escrito como complementação ao conto "Sangue Maldito", de Flávio de Souza.


        Nasci no dia de minha morte! 

        Ah, por que nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?

        Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse.

        A febre corroía-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias.  Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semiconsciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.

        A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.  

        Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.

     Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.

Sangra o luar

Sangra o luar...

Em teu pescoço suave escorre a noite
embriaga-me o néctar da vida Eterna
alma tua percorrendo minhas eras

Grito lascivo uiva ao infinito
em carne tua meus caninos enterram-se
Saciados sonhos, tristezas, quimeras


De fome, febre e sede, sangra o Luar...Estremece a noite: deslumbrante rubi!

notívaga


notívaga 



ao sol que finda
marfim sanguíneo
de lascívia fome
antecipa e suspira
 
ah, sorver assim
embriagante vinho
de vida inebriado 

 selvagem espasmo
 
dentes lascivos 
desvendam 
frutas de carnes
sonatas de gemidos

ah, serpente esguia
lábios esquizofrênicos
eterna tautologia 

olhar rubi 
espreita a noite
terno e feroz, perfila
calçadas doloridas
sementes de vida 

palpitam rubros anseios
ao luar argênteo
oferta
e oferenda
em febril sedução...

Filho da escuridão


Não deixe de conferir, no blog Fantasia & Terror, do meu amigo , o conto  Sangue Maldito ,  os primeiros instantes de sombra e dor deste filho da escuridão. 


Kjærlighet og smerte - Edvard Munch




Filho da escuridão

Por Tânia Souza


Nasci no dia de minha morte!
Ah, nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?
Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse.  A febre corroia-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias. 
       Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semi-consciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.
A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.   
Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.
Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.
Desde então eu não sabia, mas não muito longe dali, do alto de uma torre, uma criatura de trevas e horror puro sorriu com ferocidade ao ouvir-me gritar. Estava feito. Era hora de seu legado, da sua herança ser transmitida. Mas não nessa noite, o tempo seria o seu aliado. Seus olhos avermelhados luziram, mas quando viram ao longe um movimento, por algum tempo, esqueceu-me, pois era hora da caça. Não havia espaço para um recém criado quando a fome e o instinto imperam.
Na velha casa, eu tive medo, não o medo comum dos mortais e sim, medo mesclado a necessidade de sobrevivência, quando um cheiro pungente despertou minha atenção, era a fome estava corroendo meu corpo. As malditas lembranças surgiram. Ah, onde ela estaria? Ela que com voz suave afastara meu medo e mais de uma vez, me deu a vida? “Beba, meu filho. Sorva meu sangue e viva. Eu já estou morta, mas você pode viver. Uma vida maldita, mas ainda assim, uma vida.” E eu bebi. Naquele instante o garoto foi embora e com ele toda inocência.
Podia ouvir os cães em volta da casa. Ganidos baixos e chorosos, de fome e pavor indescritível frente à lembrança de algo que desconheciam. Então, eu a vi. Na sala, a um canto, o corpo dela jazia.  Toquei com cuidado a face sem vida. Se pudesse, choraria, mas minhas lágrimas haviam secado, não, a dor de um monstro não suportaria mais ser expressa em lágrimas. Ergui-a nos braços sem esforço algum, ainda que meu corpo fosse miúdo, uma força sobrenatural me animava e a levei para o quarto. Foi a última vez que vi minha mãe, depositei seu corpo sem vida sobre o leito e fechei a porta.
Ela seria vingada.

Flores da Madrugada


            As flores murchavam com o frio da noite! O homem de smoking abriu a porta do carro para o salto agulha, em tom prata, tocar o asfalto e a ruiva descer. Angélica jamais vira mulher tão bonita. “Uma flor para a moça senhor?” Ele olhou para a menina, os ossos da vendedora de flores apareciam sob a roupa e os lábios tremiam. Colocou a mão no bolso, mas foi interrompido. “Não seja tolo mon amour, essa raça prolifera. Guarde seus presentes para mim...” E riu. O moço assentiu para a dama, enquanto Angélica secava uma lágrima. Pensou no pai violento e se encostou à parede esperando as horas passarem. Como as flores, ela murchava. 

           Despertou na madrugada com a dor, o homem de olhos vermelhos a atacava, porém não lutou.  Sorveu com avidez algo quente derramado em seus lábios e o corpo entrou em frenesi. Desmaiando, ouviu “este presente é seu,mon chéri
 
Acordou com a fome e feito bicho, saltou. Numa sala ricamente decorada, o rapaz olhava para ela. Sobre um pequeno divã, a ruiva desmaiada, o pescoço ferido deixava o sangue escorrer pela pele branca, o sapato prata largado no chão. Ele disse apenas ”Beba, minha querida!” E Angélica não pensou duas vezes, cravando os dentes no vermelho quente, sugando até sentir vertigem. O homem se aproximou e, de uma vez, cortou a cabeça da dama. “Nunca se esqueça de terminar o serviço. Essa raça prolifera... não merece nosso dom”. 

Ele sorriu, mostrando os dentes afiados, Angélica sorriu de volta. Um traço cruel no rosto angelical. Sempre fora uma criatura da noite e enfim, encontrara seu lar.
Tânia Souza