Não deixe de conferir, no blog Fantasia & Terror, do meu amigo Flávio de Souza, o conto Sangue Maldito , os primeiros instantes de sombra e dor deste filho da escuridão.
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| Kjærlighet og smerte - Edvard Munch |
Filho da escuridão
Por Tânia Souza
Nasci no dia de minha morte!
Ah, nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?
Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse. A febre corroia-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias.
Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semi-consciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.
A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.
Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.
Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.
Desde então eu não sabia, mas não muito longe dali, do alto de uma torre, uma criatura de trevas e horror puro sorriu com ferocidade ao ouvir-me gritar. Estava feito. Era hora de seu legado, da sua herança ser transmitida. Mas não nessa noite, o tempo seria o seu aliado. Seus olhos avermelhados luziram, mas quando viram ao longe um movimento, por algum tempo, esqueceu-me, pois era hora da caça. Não havia espaço para um recém criado quando a fome e o instinto imperam.
Na velha casa, eu tive medo, não o medo comum dos mortais e sim, medo mesclado a necessidade de sobrevivência, quando um cheiro pungente despertou minha atenção, era a fome estava corroendo meu corpo. As malditas lembranças surgiram. Ah, onde ela estaria? Ela que com voz suave afastara meu medo e mais de uma vez, me deu a vida? “Beba, meu filho. Sorva meu sangue e viva. Eu já estou morta, mas você pode viver. Uma vida maldita, mas ainda assim, uma vida.” E eu bebi. Naquele instante o garoto foi embora e com ele toda inocência.
Podia ouvir os cães em volta da casa. Ganidos baixos e chorosos, de fome e pavor indescritível frente à lembrança de algo que desconheciam. Então, eu a vi. Na sala, a um canto, o corpo dela jazia. Toquei com cuidado a face sem vida. Se pudesse, choraria, mas minhas lágrimas haviam secado, não, a dor de um monstro não suportaria mais ser expressa em lágrimas. Ergui-a nos braços sem esforço algum, ainda que meu corpo fosse miúdo, uma força sobrenatural me animava e a levei para o quarto. Foi a última vez que vi minha mãe, depositei seu corpo sem vida sobre o leito e fechei a porta.
Ela seria vingada.