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Rancor


Rancor
Um conto de Victor Meloni e Tânia Souza

Dedicado a Henry Evaristo
No quarto escuro, as cortinas moveram-se lentamente enquanto leves respingos negros tocavam o solo de madeira. Na cama, um homem balbuciava em meio a horrendos pesadelos. Uma frase sussurrada entrelaçou sonho e realidade. O lago, mais uma vez o lago e sua superfície negra. Ele se aproximou lentamente. Uma neblina espessa erguia-se em miasmas de madeiras apodrecidas e pedras cobertas por musgos. O tempo todo, sentia-se como se por trás das velhas árvores olhos nefastos o espiassem... No piso de madeira, pequenas poças de água se formavam em direção ao leito. As águas barrentas deixavam sua marca, seu odor nauseante.
— Sr Black....
O homem debateu-se no leito.
— Sr Black... — A voz sussurrava, insistente.— Sr Black, acorde!
Um arrepio de puro horror o percorreu e sentou-se assustado. Sentiu a pele pegajosa de suor. Os murmúrios do sonho ainda permaneciam ao seu ouvido, chamando-o. Ao seu lado, Aimée dormia, ressonando em paz. Há muito tempo Fergus não se levantava no meio da noite, o peito tomado por presságios. A garganta estava seca e em busca de água, caminhou pelo aposento. Saciada a sede, dirigiu-se ao pátio, atravessando-o até a mureta que o circundava.

Férias?

Será que fantasmas curtem férias? Jogam qualquer coisa na mala que não se vê nem se carrega e sem nem dar adeus aos cantos que assombram vão se embora, estressados com o trânsito e puxando os fantasminhas pelas mãos, segurando mapas e com licença , desculpe, ei... cuidado, meu lençol importado? 

Lá onde vão os fantasmas em suas férias, é frio ou quente?

Deve ter flores.

E os mais sortudos procuram penhascos isolados que nem ecos curtem assombrar.