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Imprint - Takashi Miike - Masters Of Horror





Se fosse usar um adjetivo para este filme, seria estranhíssimo. Não no sentido de um estranho que me agrade; mas, no mínimo, de um estranho inquietante.

De maneira resumida e tentando não dar spoiler, neste filme temos a história de um jornalista americano, Christopher [interpretado por Billy Drago] que está a procura do seu grande amor, uma prostituta chamada Komomo, a quem prometeu, no passado, voltar para buscar.



A película tem início em um cenário bem sombrio, quando em um lago obscuro e misterioso, os viajantes da pequena embarcação encontra um corpo de mulher flutuando, o deboche e a indiferença perante a morta, que parece estar grávida, já é um indicio do que virá pela frente.

Quando chegam a uma ilha, em verdade, um bordel, onde prostitutas diversas aguardam os visitantes, o protagonista se revela. Ao não encontrar a mulher que procura, é obrigado a passar a noite ali, e para isso, escolhe a única das moças que não se oferece para isso. Essa jovem prostituta [ Yukie Kudoh ] de várias formas surpreendente, é quem irá garantir as diferentes narrativas que perpassam o filme.

"Esta ilha não está no mundo humano. Demônios e prostitutas são os únicos que vivem aqui. "



Essas narrativas que surgem durante essa longa noite vão revelar diversas possibilidades para o que, de fato, aconteceu com Komomo e indiretamente, a essência da maldade humana em várias versões. Ao utilizar o recurso dos flashbacks, revela-se uma estratégia muito bem utilizado pela personagem para, ao cativar a atenção de Christopher com a promessa de contar o que aconteceu com Komomo, aproveita para contar a sua própria história. O que é memória ou o que é invenção, nessas bifurcadas narrativas, cabe ao telespectador decidir. Mas não são apenas inocentes memórias e sim, cenas sangrentas, cruéis e chocantes. Pena e repulsa são sentimentos comuns frente ao filme.

Aliás, gore e tortura são a tônica do filme, assim como temas como incesto, estupro, aborto, assassinato, etc. Agulhas, cordas, unhas, vermelho são apenas algumas das combinações que as cenas mostram. 



Todavia, não foi isso o que mais me chamou atenção, e sim, como já comentei, a maldade presente no ser humano. Ah, e como é característico em alguns filmes do gênero "exploitation " há a violência contra a mulher, e nesse caso, muitas vezes provocada por outras mulheres. Este não é o primeiro dos filmes do gênero que vejo, mas a misoginia presente me incomodou bem mais que outros. 

O filme é bem escuro e sombrio em grande parte do tempo, e numa jogada que achei bem interessante, enche-se de cores e luzes nas cenas mais gore. Principalmente vermelho. Essa exploração do sofrimento feminino é bem contrastante com as cenas escuras onde a narradora conta os fatos e os pesadelos e a realidade tomam conta do protagonista. A crueldade com que o passado se revela vai se mesclando a eventos que podem ou não ser sobrenaturais.

Muitas pessoas poderiam considerar uma obra de arte justamente pela estranheza. Defensores do filme alegam que é justamente a tortura que humaniza a personagem, ao revelar seus sentimentos, ao contrário de torná-las "objetos", como é comum no gênero. Mas algumas das atuações são exageradas; o enredo em si é fraco, apesar de ganhar pontos pela atmosfera esquisita e fotografia bem explorada, não convence. 

Fiquei com a impressão de que toda essa história foi um terrível pesadelo, ou uma tela bem surreal. Mas com excesso de tinta aqui, e falta de alguns traços ali, se me permitem a fraca comparação.


**

A série Masters Of Horror têm duas temporadas e os filmes são de uma hora, independentes e baseados em clássicos do horror. Ah, cada um filmado por um diretor diferente, o que garante muita variedade.



Ela


Ela


Por Tânia Souza 

Ela estava em meus braços, o mais lógico dos seres também não teria resistido a leveza diáfana de sua presença. Meus olhos outrora nublados em lágrimas contemplaram embevecidos a beleza que tanto me torturara. Ah, saudade insana, cruel, desesperadora.

Coração acelerado em suspiros, garganta em febre, meu rosto lentamente aproximou-se daquela beleza em mármore. Sua boca, um botão translúcido. Sim, beijei-lhe a boca descorada. O gélido destino selou-se naquele instante de loucura e dor. Que me importava a meia-noite, o silêncio, e os olhos congelados das esculturas que me espiavam na penumbra de um cemitério secular?

Profanei aquele que deveria ter sido o seu último lar. Suas vestes imaculadas, os cílios longos na face lânguida. E lhe roubei a tempo dos vermes e seres infectos que ousariam profanar seu corpo sacro.

Minha? Não, nunca o fora, nunca seria.

Senti minhas forças deixando-me quando o sopro que me animava era lentamente absorvidos pelos lábios que tanto amei. E eu apenas dormiria meu sono eterno naquele leito que por pouco tempo fora o dela.

Quase inerte no sono da morte, vislumbrei seu renascer.

Depois, anjo insano sorrindo-me ainda em nubladas fantasias, partiu na noite sombria.

O quadro



O quadro

Por Tânia Souza

O barulho da bola estourando se espalhou na sala. Adoro goma de mascar. A tosse sacudiu o peito do velho sentado na poltrona, o peito chiava enquanto eu apenas observava o corpo carcomido pela idade estremecer. Após alguns minutos, a sua mão magra estendeu-se e me chamou: Quantos anos minha filha? A velha pergunta. Vinte, respondi sabendo que meus olhos desmentiriam, mas isso de fato não importava, nunca importa para eles. Mais uma vez me estendeu a mão. Meu chiclete ainda estava doce quando grudei na mesa de mogno ao seu lado e sorri, o sorriso é fundamental para gerar a confiança. Cheguei perto do homem e senti o cheiro dos antibióticos, primeiro a grana vovô... O velho também riu, mas a tosse mais uma vez o sacudiu todo, quando apontou para um envelope sobre a mesa. Peguei sem conferir. A sala estava escura, apenas algumas velas iluminavam o lugar. É bonito aqui, você vive sozinho?, perguntei, enquanto meus saltos plataformas ecoavam no assoalho amadeirado e eu sujava meus dedos nos livros acumulados de poeira. Não te chamei para conversar menina, venha cá, mais uma vez o peito chiou ameaçadoramente. Quanta velharia! Era chegada a hora e, sorrindo, me aproximei do velho. Calma vovô, dei uma risada que perdeu-se nas sombras e nos acessos de tosses que de vez em quando interrompiam o silêncio... Passaram-se algumas horas, na parede, um relógio antigo avisava que a madrugava se anunciava quando fui para os fundos da casa.


Diogo estava parado em frente à parede, um quadro maldito, Christine. O maior tesouro desse cofre é um quadro bizarro... Diogo era bonito, os cabelos levemente grisalhos, o ar de respeito que muitas vezes me salvara. Um advogado decadente, cujos conhecimentos me fizeram a herdeira de milhões. O quadro é realmente bizarro, horripilante seria o termo correto para ele. A primeira vez que senti sua força insana foi quando a moça da galeria veio para avaliação. Ficou parada em frente ao quadro, parecendo hipnotizada, quando me olhou, seus olhos revelavam certo asco, não, não servia para a galeria. A polícia ficou intrigada com a sua morte, mas a presença de duas testemunhas e do exame do corpo revelou que fora apenas acidente, ela tropeçou na dobra do tapete e bateu com a cabeça na mesa, o sangue jorrou ate ser absorvido pelo assoalho amadeirado. Quando os médicos chegaram ela já estava morta. O fato de eu ser apenas uma jovem herdeira, órfã no mundo ajudou a eliminar qualquer suspeitas. Na minha nova situação, o que mais me agrada é o olhar penalizado dos que me cercam. Pobrezinha, sozinha agora. A neta que ele tanto procurou foi encontrada.


O corredor



O corredor
Por Tânia de Souza
No outdoor, enquanto o cowboy fumava, as luzes de néon invadiram as cortinas vulgares. Na penumbra do quarto abafadiço, um ventilador girava suas engrenagens corroídas quando Paulo moveu-se na cama, murmurando, preso aos sonhos. O suor escorria-lhe pelo pescoço. Ainda adormecido, passou a mão na pele pegajosa. A noite estivera abafada, e o ventilador, em sua ladainha espalhava a poeira que os hotéis guardam com o tempo. A música vinda da rua era dolorosamente bela: — For you I'm bleeding... For you, for you…

Fora a canção que o despertara. Ainda naquele estado de sonolência, as mãos procuraram o pequeno celular embaixo do travesseiro. Abriu os olhos e viu no painel azulado que ainda faltavam quinze minutos para às quatro horas. Mais uma vez despertaria e seguiria viagem, deixando aquele hotel. Suspirou, ah como odiava acordar antes do despertador, roubado em quinze minutos do seu sono. Virando a cabeça para o lado, olhos fechados, empurrou os lençóis para longe, evitando pensar no dia que logo se iniciaria. Tentou não sentir a boca ácida, guardando resquícios de whisky , enjoado com o cheiro da maquiagem e do perfume barato de alguma prostituta que lhe fizera companhia parte da noite. Vencendo a náusea, cobriu a cabeça para fugir da luz vinda da janela. A canção havia desaparecido apesar da melodia ainda ecoar.

Os visitantes da Noite



Descobri ao acaso a literatura de James Herbert. Desde então, li os dois livros a que tive acesso e saí a procura de um outro, pois a maioria dos seus livros não foram publicados ainda no Brasil. 

A invasão dos Ratos (pura agonia) e Luar ( mistura admirável de sobrenatural com suspense) que em breve comentarei aqui, já foram lidos e devorados, e para minha alegria o carteiro acabou de entregar Os visitantes da Noite.

Uma aquisição que espero, venha trazer boas novas a minha biblioteca sombria.