O beijo!
Por Tânia Souza
Não bani os fatos da memória, são apenas detalhes que vislumbro. O resto perdeu a densidade em meio ao universo sinestésico que vivo. Lembro do cheiro, das vozes, as cores e pulsações. Nada mais. Aquele 13 de abril - dia do beijo - amanheceu cinzento, quando me encaminhei para o calor sufocante das salas e das vozes aglomeradas. Livre enfim, sai tentando desviar da algazarra no corredor. Entre as risonhas feras, a euforia indicava que mais um ritual de passagem iniciava-se naqueles cantos quase escondidos da escola. Mais uma prova que queimaria os sentidos das vitimas em potencial, instigava a turba que bradava e seria lembrada para sempre como a primeira vez em que dois lábios se encontrariam para enfim conhecer o embargado sabor de um beijo. Assim seria.
Aos 17 anos, eu carregava o estranho fardo de nunca ter beijado.
Aos 17 anos, eu carregava o estranho fardo de nunca ter beijado.
Desconhecia o calor de outra boca, o som de outro coração junto ao meu. A emoção de dividir, compartilhar, viver no enlace de dois lábios. A minha boca era uma boca indecifrada, assim como o era meu coração carente de afetos, amigos... Quis ainda esgueirar-me, na tão conhecida sina de fugir das barreiras humanas. A indiferença dos colegas. A invisibilidade frente ao que eu nem sequer ousava cobiçar. A rejeição. O vazio. A sede por algo que não sabia nomear.