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Quase sempre, sou quase feliz

Confundo, muitas vezes, tristeza com saudade, ausência com solidão... não sei nomear todas essas melancolias que ganhei por ai. 

Quase sempre, sou quase feliz, sempre foi assim e gosto que seja.

Mas dias há que mesmo nos momentos alegres, a saudade parece mesmo dor física, comparação superficial, mas é.
Tal qual uma dor muscular que sentimos apenas quando movimentamos certas partes do corpo, você está sorrindo, e de repente, um movimento qualquer traz a dor de volta. Não sei bem como definir, essa mescla de pesar, de perplexidade e de aceitação espantada diante do que já não há como mudar. 

Não se trata de infelicidade. 

Mas dói.

Cicatrizes

Uma cicatriz é algo tão estranho e ao mesmo tempo, cabe nos "sei lá". Temos tantas cicatrizes que ninguém vê, aquelas que vão nos traçando pela vida, mas as visíveis, aquelas que nos marcam, que mesmo que o outro não queira, muitas vezes o olhar procura, são complexas.

Podem representar a vida, a dor, a morte ou batalhas que nos marcaram de diversas formas. Curiosidade, espanto, pena, atração, vergonha, orgulho e tantos outros sentimentos se desenham com elas.

E de vez em quando, elas doem.

Henry Evaristo e a Litfan



Ontem foi dia 16. Três anos que o Henry Evaristo morreu. Vez em quando, que saudade de conversar com essa pessoa. O Henry só conseguiu publicar um livro, sei lá, há quatro anos o cenário era bem outro, principalmente para quem escrevia terror. 

Na época, eu nunca tinha escutado a palavra fandom, a internet foi uma opção para encontrar pessoas que gostavam do que eu gostava: escrever e trocar ideias com quem gostava do gênero, discutíamos teoria, opções, bobagens tantas, a publicação parecia algo bem distante. 

Mesmo no mundo online, sempre fomos meio " a parte", acho. Muita coisa mudou. O mercado literário está crescendo, experimentando e nós, leitores e escritores, vivenciamos momentos diferentes em relação a isso. 

O Henry escreveu contos diversos, alguns , excelentes, outros, medianos. Escreveu poesias, em grande parte, irônicas e engraçadas, e com um tom gore muito diferente. Também fez música.

Como tantos de nós, tinha fases diversas. Sei que ele tinha um romance incompleto, alguns contos perdidos... esboços e rascunhos que discutíamos e não chegaram a tomar forma.

Se não fosse o Clube dos Autores, ele nem teria reunido seus contos numa publicação. Lembro que ele reclamou de alguns problemas de espaçamento, ele mesmo havia feito a diagramação em um pc que estava muito teimoso, e pelo que a mãe dele me contou, já estava no hospital quando pegou o livro físico. Mesmo assim, ficou feliz. 

Acho que mesmo que muitas vezes, pensamos e dizemos que escrevemos para nós mesmos, a publicação é como a concretização, é a promessa do leitor, é o gosto, o toque do realizado. Fico feliz que meu amigo tenha tido esse momento. 

Eu tenho o livro " Um Salto na Escuridão – Contos de Terror e Solidão", para mim, depois de ser horas de distração e leitura de qualidade, é o retrato de uma época ali tão pertinho e já distante. Da produção online e publicações em páginas e sites ao universo das antologias, das dificuldades de se escrever, do mercado editorial, do universo da litfan, das complicações e necessidades do cotidiano com a necessidade de ter tempo para escrever, pesquisar, trabalhar o texto, situações que não são novas nem vão desaparecer, a literatura sempre está meio entrelaçada com isso 

Sempre nos lembramos do Henry - os amigos mais chegados - porque era principalmente, uma figura fascinante: engraçado, polêmico, inteligente, interessante, chato, implicante também, e talentoso. Mas principalmente, porque ele amava a literatura fantástica e além da amizade, a admiração pelos escritos dele sempre foi muito real para todos nós. A irmandade, com todos as oscilações de ser um site coletivo, é ainda fruto dessa admiração.

Não sei se o Henry teria se tornado o escritor que poderia ser, ou se já o era e se um dia teria o reconhecimento que desejava. Isso não se pode prever, tantos deixam de escrever, ou simplesmente, continuam por si só, ou mudam o foco. Mas que ele nos faz falta, sim, isso faz. E o que fica para mim é a lembrança de um dos momentos da nossa litfan; que é tão novinha ainda, nos seus passos, apesar de ter já um bom caminho traçado, ainda tem muito a crescer.


E quando tudo parece perdido...

Eu faço um haicai.

Escrever as sombras

E eu que nunca havia pensando em escrever terror e horror, mas as histórias mais terríveis ( para mim) nem pedem pra ser contadas, simplesmente são, ainda que eu deteste a violência e de vez em quando, ainda tenha medo de olhar a escuridão.

Divagantes

as vezes tenho sim
essa estranha impressão que a literatura vai me libertar de mim

mas o que persiste mesmo é o medo do abismo

e do absurdo
dessa outra que na palavra talvez eu seja


então é como se essa dor e essa densidade que me estremece

fossem de repente se-me-revelar
e eu saberia de algum mistério
será?

acho que eu tenho mesmo medo é de existir