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Ìtalo Calvino

Tudo que você, leitor, quer é entrar em uma livraria e comprar o livro que procurava, mas quando se reúnem um leitor, uma livraria e os livros, segundo Ítalo Calvino em "Se um viajante em uma noite de inverno." tudo pode acontecer. 

(...)

"Já na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo esta pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os:

Livros Cuja Leitura É Dispensável;

Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura;

Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos;

Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria de Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim.

Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros,

Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço,

Livros Idem Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém,

Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido.

Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler,

Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,

Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,

Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,

Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,

Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,

Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

(Se um viajante numa noite de inverno)

Amo muito tudo isso *.*

O conto da Aia - Impressões e Expressões de Leitura - Tânia Souza

Esta é a capa do meu livro
Impressões e Expressões de Leituras, por Tânia Souza

O que faz um livro tornar-se nosso favorito? Entrar nesta lista, por vezes seleta, de obras que inevitavelmente têm o dom de nos inquietar, encantar, surpreender ou mesmo assombrar?  O Conto da Aia ou A História da Aia, como trazem algumas traduções, é um desses livros que, enigmaticamente, entraram na minha lista de favoritos.

Na Republica de Gilead, outrora Estados Unidos da America, num futuro próximo, literatura, arte, direitos, escolhas, pensamentos... quase tudo se tornou proibido. O tema não é novo: humanidade em perigo, um regime fundamentalista e patriarcal toma o poder. Um Muro exibe os corpos dos pecadores, condenados que servem de aviso a todos. E nessa sociedade, as mulheres estão divididas em castas e categorias bem definidas: aias, esposas, martas, tias, antimulheres, economesposas... Algumas já foram Moira, Janine, Lydia, Elizabeth, Serena... Mas estes nomes, principalmente para as aias, estão proibidos. E no absurdo dos sistemas totalitários, de controle e como sempre, nos jogos de poder o lícito ou proibido é extremamente relativo.

Mas estas coisas, ao que me consta, foram queimadas, eu disse. Houve buscas de casa em casa, fogueiras...
O que é perigoso nas mãos da turba, disse ele com um não-sei-o-quê de ironia, é bastante seguro para aqueles cujos objetivos estão...
Acima de qualquer suspeita, disse eu.
Ele balançou a cabeça, aprovando com ar grave. (p. 170)

Primeiro, o que é uma Aia? Eu poderia dizer que são mulheres férteis cuja única função é procriar. Elas que se ajoelham e rezam para que o seu comandante possa lhe engravidar.

Dai-me filhos, senão eu morro. Isso pode ter mais de um significado. (p.69)

Que uma Aia pode ser Defred, Degren... de quem tiver o poder. E falhar pode ser muito arriscado, colônias com altos níveis de radiação, o muro... Resta-lhes ser propriedade de um estado totalitário. 

Somos úteros bípedes, nada mais: vãos sagrados, cálices ambulantes. (p.147)

E por serem tão valiosas que o domínio tenta se estender não somente ao corpo, mas a mente destas mulheres. Tão valiosas que o próprio suicídio lhes é veementemente negado, na retirada de qualquer objeto cotidiano que possa ser utilizado com essa finalidade. Mas também, posso dizer que são guerreiras, lutando para simplesmente, sobreviver. Cada escolha também gera julgamentos e mesmo em um regime como este, as aias são julgadas. 

Meu nome não é Defred, é outro que ninguém mais usa, pois está proibido. Guardo o conhecimento deste nome como quem guarda uma coisa escondida, um tesouro que algum dia haverá de desenterrar. Penso nesse nome enterrado. Esse nome tem uma aura à sua volta, como um amuleto, um patuá que vem de um passado inimaginavelmente remoto. À noite, deito-me na minha cama de solteira, de olhos fechados, e o nome flutua atrás das minhas pupilas, quase ao alcance da minha mão, brilhando no escuro. (p. 94-95)

Demorei muito tempo para começar essa leitura, a capa não me atraia e a sinopse tampouco, mas a dica havia sido boa – obrigada, moço do café -, e estava curiosa para ler. Meu livro foi comprado em um sebo – adoráveis sebos – quase por acaso, e ficou um bom tempo guardado.  Publicado pela Editora Marco Zero, em 1987. Na capa, um muro cinzento e duas figuras minúsculas, vestidas em vermelho, caminham junto a ele... E por que gostei tanto desse romance? A identificação pode ter acontecido por diferentes motivos, não apenas pelo Conto que a Aia nos conta, mas pela forma como o faz, pelas provocações que essa história me traz.

Talvez nada disto tenha a ver com controle, talvez não tenha nada a ver com quem tem o direto de ser dono de quem, ou com quem pode fazer o quê com quem, impunemente – até matar. Talvez não tenha a ver com quem pode se sentar e quem deve se ajoelhar, ficar de pé ou deitar-se de pernas abertas. Talvez tenha a ver com quem pode fazer o quê, com quem, e ser perdoado por isto. Não venha me dizer que é tudo a mesma coisa. (p. 145)

Defred pensa, pondera, procura brechas, tenta adaptar-se, conforma-se, julga, observa e muitas vezes, ousa e, quando não dói demais, se lembra. Em algumas ocasiões, apenas tenta continuar. E no seu contar, a intrínseca solidão de uma narrativa que é quase questão de sobrevivência. 

Não queria estar contando esta história. (...) Não preciso contá-la. Não preciso contar nada, nem para mim nem para ninguém. Podia ficar aqui, sossegada. Podia me recolher. É possível se penetrar tão fundo, tão fundo, que ninguém mais nos tira de dentro de nós. (p 239-240)

Mas na verdade, ela precisa, e conta. Sobre quem é, como é a sociedade onde vive agora, sobre as pessoas que já amou e que lhe foram tiradas e sonha reencontrar, sobre quem foi. E alternando-se com essa necessidade de calar-se dentro de si, luta pela identidade, para não se perder de vez. Principalmente, quando o próprio nome é negado, e a autora mostra isso de uma forma contundente. A Aia que nos narra é chamada apenas de Defred. De Fred. Pertence a este comandante quase inexpressivo: Fred. Mas subjugada pelo olhar das Esposas, das Tias, das Martas, das outras Aias, dos Olhos... tantas nomenclaturas e castas. E ainda assim, ela tenta sobreviver. Ela ousa querer algo. 

(...) no céu escurecido a lua flutua, sim, recende, uma lua de anseios, um estilhaço de pedra arcaica, uma deusa, uma piscadela de olhos. A lua é uma pedra, o céu está cheio de armas mortíferas, mas, meu Deus! Quanta beleza, apesar de tudo.

Quero ser abraçada e chamada pelo meu nome. Quero ser valorizada de uma forma que não sou; quero ser mais do que simplesmente valiosa. Repito meu antigo nome e me lembro de tudo que um dia eu podia fazer, de como os outros me viam. Quero roubar alguma coisa.

Margareth Atwood alterna momentos de prosa quase poética, como este trecho acima, com trechos duros e contundentes, a forma como descreve uma particicução, econômica, crua e ainda assim, angustiante. A autora alinhava fatos atemporais com naturalidade e consegue, lentamente, prender o leitor até o momento de tirar-lhe o chão. O conto da aia é, sobretudo, uma história de terror e medo, ainda que sem a presença do sobrenatural, é uma ameça constante: o conto da aia pode sim, tornar-se real.
Assim, desfilam perante o leitor questões de gênero, fundamentalismo, teocracia, política e organizações sociais, estado e religião, poder, metalinguagem, solidão, sexualidade, sensualidade, identidade, sobrevivência... cada leitor encontrará algo que lhe chame mais atenção, seja pelo absurdo, pela emoção, pela própria construção do literário.

Percebi que A História da Aia deixa algumas lacunas. Principalmente a omissão de algumas informações. Mas mesmo essas lacunas que podem ser apontadas como falhas, vejo como um recurso narrativo: a história nos é apresentada de um olhar. E ao olhar dessa narradora, nem tudo está claro, nem tudo é explicado. Mas é principalmente pela narrativa intima que ela me ganhou. A narradora tentando sobreviver através da palavra comove a escritora, a mulher e a sensibilidade que há em mim.

Quando eu sair daqui, e se eu conseguir registrar isto de alguma forma, mesmo que seja na forma de uma voz falando a outra, também será uma reconstituição, mais ainda do que agora. É impossível contar algo exatamente do jeito que foi, pois o que se conta nunca poderá ser absolutamente exato, sempre é preciso deixar algo de lado: há partes, ângulos, variáveis, matizes demais; gestos demais, podendo significar isto ou aquilo; formas demais, que nunca poderão ser descritas em sua totalidade; sabores e aromas demais, no ar ou na língua; meios-tons em excesso.(p.145)

Mesmo que eu desconfie da paisagem... Nem sempre a trama, o tecido, o texto são de fato, confiáveis, e que o narrador possui sutilezas que podem nos levar por labirintos e enigmas tantos.

Isso eu inventei. Não foi assim que aconteceu. O que aconteceu foi o seguinte: (...) Também não foi assim como aconteceu. Não tenho muita certeza, agora, de como aconteceu; não exatamente. Só posso confiar numa reconstrução (p. 277)

E para me apaixonar definitivamente, o tom metalingüístico da narrativa. A arte de contar histórias me cativa, o refletir sobre a palavra é simplesmente sedutor.

A caneta entre os meus dedos é um objeto sensual, quase vivo; sinto o seu poder, o poder das palavras que contém. (p.200)

Ou ainda, porque eu tenha essa ilusão de que também em mim, histórias pedem para ser contadas e também delas, depende um pouco a minha sobrevivência. E espero que isso não soe pretensioso como me pareceu, e sim, revele o quanto eu preciso e respiro a escrita, ainda que amadora. Escrever tem mesmo esse fascínio, não como algo mágico, mas sim, como um jeito de olhar o mundo, de captar algumas essências e a necessidade de tentar, o que nem sempre conseguimos, concretizar isso em palavras.

Então, por me fazer pensar em todas essas coisas e outras mais, O Conto da Aia tenha entrado em meus livros favoritos, porque tem cheiro de sensibilidade, sabe ser poético e extremamente cruel. Porque é como um lamento, uma única e desesperada forma de sobrevivência.

Ainda que inventada.

Ou não.

* Resenha escrita em 2011 


Da orelha

Vestida em longa túnica vermelha e de touca branca, Defred diariamente caminha em silêncio perante os Guardiões da Fé. Ela troca fichas por comida, enquanto observa o Muro, lugar onde traidores e criminosos pendem enforcados por pecados que não eram pecados no passado.

Durante a noite, em seu quarto austero, Defred relembra antigos e superados costumes como falar da vida alheia, usar papel moeda e praticar esporte ao ar livre. E sobre as coisas que são proibidas agora: mulheres terem empregos, ler, ter seu próprio nome, amar. O amor, que era central em outros tempos, agora era irrelevante.

Através do olhar de Defred, ficamos conhecendo o lado sombrio que a fachada ordeira da República de Gilead esconde. Um regime puritano e fundamentalista que leva o Livro de Gêneses ao pé da letra, com bizarra consequências para as mulheres e homens em geral.



Metanfetaedro

Chegou por aqui um livro que estava bem curiosa para ler, o Met... [ ahn, um instante para conferir e escrever corretamente ], pronto, o Metanfetaedro.

E por que estava curiosa? Eu gosto dos contos da Alliah, eles são super diferentes e ao mesmo tempo, carregam o que há de legal na literatura fantástica: não são comuns, banais ou realistas; mas dentro do estranhamento imenso que personificam, trazem pontos que poderiam ser reconhecidos em um passante qualquer desse universo conturbado que perambulamos . 

Ah, confesso, não conheço a literatura new weird, ( link para um texto muito bom no Mundo Fantasmo)  portanto, é na base do experimentar para ver o que há mesmo. Então, desde que vi a divulgação, quis ler.

Cheguei a conclusão que o que há é diversão.
E que não dá pra se divertir e sair como se chegou. 

E os personagens não são passageiros, ou seja, você pode "esquecer" deles, mas não totalmente, sempre deixam resquícios no leitor. É como a sereia do que o leitor encontra no primeiro conto do livro ... sintetiza o mundo ao seu redor, real ou imaginado, mas reinventando-o em sua própria pele.  O que quero dizer sobre os personagens como Iara, Mogul e Marmelo é que eles ficam, mesmo que você não os conheça tão bem, a autora consegue transmitir ao leitor o que possuem de melhor, ou pior, em essência. 

E dá uma certa exasperação, do tipo, como assim acabou? Mas eu queria saber mais dessa persona/máquina/coisa/cidade/esquisitice/sinfonia.

Então, você pode encontrar poesia, tristeza, melancolia, raiva, risos e muito, muito espanto. E eu gostei disso.
**

* As ilustrações são lindas.
* Na dedicatória, a autora sugeriu um " aprecie sem moderação", mas no meu caso já sei que será preciso ler Metanfetaedro em doses homeopáticas. Para aproveitar todas elas.

Uma vida em segredo


"Não vi mundo. Pouco vi. Mas li vidas em segredo. E dentro de mim, uma canção, tão absurda e sincera quanto Biela, ficou. Vismundo, então."

Minha pequena despedida ao autor de Uma vida em segredo, Autran Dourado. Que das páginas de um livro me trouxe o barulhinho bom da água fresca percorrendo o monjolo, de gosto do mel puro e do abismo insondável daqueles que nos parecem simples demais. Do espanto que nos causam os que insistem em, simplesmente, ser.
E conseguem.



Apenas mais uma dessas histórias meio tristes, meio absurdas, mas que comprovam o quanto a literatura nos faz bem.

Autran Dourado 
1926 - 2012

Os visitantes da Noite



Descobri ao acaso a literatura de James Herbert. Desde então, li os dois livros a que tive acesso e saí a procura de um outro, pois a maioria dos seus livros não foram publicados ainda no Brasil. 

A invasão dos Ratos (pura agonia) e Luar ( mistura admirável de sobrenatural com suspense) que em breve comentarei aqui, já foram lidos e devorados, e para minha alegria o carteiro acabou de entregar Os visitantes da Noite.

Uma aquisição que espero, venha trazer boas novas a minha biblioteca sombria. 

Todas as cosmicômicas - Ítalo Calvino


Você espera por mais um livro de contos, talvez, uma ou outra crônica, mas nestes contos ou cosmicômicas, escritos a partir de textos e conceitos científicos, a grande parte sobre fenômenos relacionados ao universo, ou à origem das cousas. E então, quando você menos espera, tudo a que estamos acostumados transforma-se, mergulhamos em um universo lúdico, fantástico, onde tudo é possível, espaços antes desconhecidos tomam formas e cores em seus contos, mas os sentimentos e conflitos abordados são humanos, demasiados humanos.


A narrativa de Calvino tem cheiro, sabor, som e cor, mas nenhuma dessas sensações são como as conhecemos e sim, reinventadas.

Qfwfq é o herói das cosmicômicas, testemunha ou agente principal da origem e das des-origens do universo. 

Humor, paixão, desejo, comunicação, solidão, disputas... permeiam as cosmicômicas.

Entre os meus favoritos...

"Um sinal no espaço": conflitos e egos, os desafios da comunicação e da interpretação. Ser e parecer confundem-se num universo em formação.

"Sem cores" Inquietante cosmicômica sobre a beleza( Ayl é encantadoramente linda e pura e o encanto que exerce em Qfwfq comove) sobre o espaço de cada um, onde o cinza predomina até que...

"A distância da lua" impossível comentar, somente apreciar...