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Não sei andar de bicicleta

 

NÃO SEI ANDAR DE BICICLETA

 Por Tânia Souza

 
            Tardinha, o sol se pondo tingia o céu de vermelho, alguns fiapos de nuvens brincavam no céu. Ela estava sentada na calçada, pés descalços aproveitando a brisa. Um livro aberto repousava sobre a sandália melissa.

Os ruídos encheram a rua e algumas bicicletas coloridas passaram. Uma delas, aquela que ela tão bem conhecia, toda azul e sem garupa, parou ao seu lado. Do walkman que ele trazia pendurado, podia ouvir a voz distante de Axel pedindo patience....
          Ele sorriu:

          — O Apa está cheio, quer ir com a gente?

          — Não sei andar de bicicleta, nunca aprendi.— O rosto estava vermelho, para ela, não saber andar de bicicleta pareceu-lhe então a vergonha suprema. Disfarçou a vontade de arrumar um cacho que caia na testa. Descalça, cabelos rebeldes e sem saber andar de bicicleta. As bochechas então queimavam. 

          — Eu te levo.

            O rosto dele estava sério. Esperava uma resposta. Mas levar como? Ela olhou para ele, olhou para a bicicleta sem garupa, para os amigos que esperavam na esquina.

          — Mas...

          Ele sorriu e apareceu a covinha que fazia o seu coração disparar desde que ele se mudara para a cidade. Enquanto apontava para o cano azulado, coberto por adesivos do Guns, disse ainda sorrindo:

           — Te levo aqui.

Nem teve tempo de pensar, as covinhas decidiram por ela.
           

Mais tarde tentaria, mas não conseguiria se recordar da brisa enquanto venciam o asfalto indo em direção ao rio. O colégio, a sorveteria, a pracinha pintada de branco. Tudo que se lembrava era de sentir o coração dele ali tão perto e seus cabelos rebeldes teimando em tocá-lo. De ter que virar o rosto para responder a algo e descobri-lo então ainda mais próximo... e depois.

 E depois o que ficou nas lembranças foi o primeiro beijo dissolvendo tudo ao seu redor enquanto o rio descia desesperado, invadindo casas e ruas. A fome daquela cheia não era maior que a sua.

 

Alma de cometa


ALMA DE COMETA

Tânia Souza

Halei Deivison da Silva tinha 17 anos, um nariz quebrado e muitas cicatrizes. Coisa de moleque criado na rua. Não tinha carteira e a primeira moto que comprou era bob. Nem ligava, subia na máquina e dizia, minha luz, ninguém há de apagar.  

A vó dizia que o nome veio da passagem do cometa, a mãe se enamorou de um visitante desconhecido e o menino se fez. Vai se chamar Halei da Silva, como pediu o pai, disse num último suspiro, a mãe ainda tão moça. E Deivison pra não ser nome só.

O sangue se atraia pra malandro, confusão e moça bonita, Halei Deivison da Silva batia no peito e dizia:

aqui não violão,

não se meta a besta,

nem vem com treta,

eu tenho é nome de cometa

Atravessava a cidade e nos altos da Afonso Pena, andava de suspirança espiando estrelas. Disso não falava, mas esperava que um dia, o tal cometa voltasse.

Quando conheceu Julinha, se enamorou de tanto que nem mais nas madrugadas quis correr. Esqueceu estrela, esqueceu cometa. Esqueceu da maldade que anda pelo mundo. Mas no bairro, mão da moça já tinha promessa. Deu no que deu, o quase noivo foi quem não gostou, certa feita pegou o moleque de jeito, e nunca mais ninguém viu, nem se falou.

Os dias comeram os sonhos, os bairros se estenderam sem preguiça em torno da cidade morena. Mas quando é madrugada e o asfalto que cobre os córregos brilha, ouve-se de longe o ronco do motor. E feito língua de fogo, corre pela noite uma trilha de luz. Dona Julia suspira e diz, é Halei Deivison, tinha mesmo alma de cometa, tinha sim. 

Era de destino de Halei, brilhar.

 


El Cavajú Pÿta

El Cavajú Pÿta - Voo pela liberdade

Por Tânia Souza



É ele, eu sei que é... e agora? Ay Dios, que faço? Que faço... Os soluços de Uiara eram sussurros, mal-ouvidos por ela mesma, temia e tremia ser vista, sabia que ele viria um dia, mas não assim, a vida inteira preparara-se em seus pesadelos para este encontro, mas nunca, nem nos piores momentos de medo, se imaginara assim, sozinha e despreparada. Mas como pode alguém estar preparado para a visita da dor?

A risada sinistra, o cheiro fétido e as mãos imundas rasgavam o pão sobre a mesa, bebiam o café e olhavam ao redor, sempre a procura de algo para tomar.

Uiara escondera-se no pequeno armário, dentro da despensa, quando escutara os tiros e a porta sendo derrubada com força, fora para o único lugar onde podia se esconder. Rezava, do seu jeito, a Deus, aos santos, aos pais que já haviam partido e a deixado tão só. Onde estaria Ramón? Onde estaria o homem que a tinha como filha, estaria morto, ferido? Jamais deixaria que aquele monstro chegasse até ela. Soluçava em silêncio, tinha medo de respirar, a pele estava pegajosa, o suor escorrendo debaixo da chita, o coração batendo tanto parecia um tambor avisando sobre seu medo. Ramón jurara que nunca a deixaria só, e tinha prometido aos pais, no leito de morte, dar a vida por ela, será que a promessa havia sido cumprida? Uiara sentia-se sozinha, rezava por Ramón, seu único amigo.

Agora ele mordia o pão, cheirava e rasgava a lingüiça pendurada, suspirando de prazer, tomando a água límpida da jarra, mastigando furiosamente o alimento encontrado. De repente, ele parou.

Dios mio. Uiara tremeu e tentou não respirar, viu quando ele virou lentamente o corpo e passou os olhos pela porta entreaberta da despensa, o monstro tinha instintos apurados, diziam no povoado que tinha parte com o Coisa Ruim, a jovem se benzeu, fazendo o sinal da cruz, encolhendo-se mais no fundo do armário, sentia o cheiro das coisas guardadas, do sabão de graxa, do eucalipto que usava para perfumar as roupas limpas, mas sentia também o cheiro de maldade que invadira a sua cozinha. Cheiro que agora se aproximava lentamente de onde ela estava. 

Quando ele abriu a porta, o sorriso maldoso, os olhos procurando por ela, chamando, dizendo seu nome, gargalhando, uma força desconhecida moveu Uiara, não seria tomada por aquele homem. Tudo começara por causa da terra, mas agora, ela se lembrava da irmã, o corpo marcado, os olhos enlouquecidos, coberta de mordidas e queimaduras, a insanidade foi uma benção diante do que passara. Depois de tanta luta, guerra, Uiara fugira da vingança, da insana vingança daquele que chamavam de El Cavajú Pÿta, ou Cavalo Vermelho, louco, insano, mau. Sujo de corpo e alma.

Ele sabia que ela estava ali, sorria e chegava feito uma onça, pressentindo o cheiro de medo, rindo de sua desgraça, antecipando de forma descuidada o prazer da matança. Um espeto de ferro, esquecido em um cantinho encheu as mãos da moça, e quando os olhos claros, o cabelo de fogo e os dentes podres estavam tão próximos, ela abriu a porta do armário de repente, investindo nele, furando o canto do peito, gritando toda dor e medo que guardava desde menina, mas El Cavajú era rústico, bruto, empurrou a garota, e tocou o espeto, feroz, gritando: chega de fugir guria, vai pagar, finalmente a tua raça vai sumir desse chão de inferno.

Cuspiu de lado, arrancando o espeto, levantando meio mole do canto onde havia caído. Uiara caminhava de costas em direção a porta, quando percebeu o sangue manchando a camisa suja e o homem ruivo se levantando, virou-se e correu. Desejou, na ardência da alma, ter asas.

Na porteira, o corpo de Ramón a esperava, coberto sangue e terra, caído no chão que jurara proteger. Uiara corria, corria, berrava desesperada por socorro, sem ver para onde ir, deixando a pele ferir-se no mato que crescia, os joelhos morenos esfolados.

Ouvia a risada, a gargalhada empestando o ar, cada vez mais perto, corria e corria, o coração explodindo no peito. O bandido que a seguia era um homem alto, ruivo, barbudo, havia recebido o apelido devido à crueldade com que atacava as pessoas, como um verdadeiro demônio.

Uiara correu tanto, e de repente parou. A sua frente, a terra abria-se em uma cratera, estava em frente ao terrível Buraco das Araras, voltou-se trêmula, tentando dar a volta, mas El Cavajú já estava perto, sorrindo, os dentes apodrecidos, os cabelos empastados, a pele encardida, chica, chica, não tem pra onde ir...

Uiara olhou, viu o que a esperava, os olhos de cobiça, de fera, em seus joelhos, a crueldade escorrendo viscosa dos olhos azuis, e atrás, cheiro de morte antiga, era no Buraco das Araras que muitos mortos foram jogados, ladrões, bandoleiros, homens bons atraiçoados, todos igualando-se no escuro das rochas, apodrecendo ate desaparer no tempo.

Uiara sonhou asas e fez seu ultimo vôo. Reviu os pais, o roçado, o gado campeado, a irmã trançando seus cabelos, os braços de Ramón carregando-a quando ainda menina e voou pela sua liberdade, venceria assim o monstro que tentara destruir a beleza de seus dias, mas que jamais a teria.

Pensou que, talvez, lhe esperasse a paz, na morte. Quis o destino, fosse outra a sua sina. Cresceram-lhe longas, coloridas e sinuosas asas.

Uiara livre, agora voava. Da imensidão azul, viu quando o homem a beira do abismo recuava e no ventre de pedras e tragédias de outras eras, erguia-se do Buraco das Araras uma revoada que clamava por justiça.

O bando trouxe, por alguns instantes, noite ao dia, o homem correu, correu, mas não adiantou. Asas da vingança o envolveram, engolido primeiro pelas sombras da própria alma, El Cavajú alimentava a fome da dor que semeara. 

 

Dom


Marcelo Paschoalin
               
Dom

Tânia Souza      
    
            Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. A garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir.  A jovem, conhecida por muitos como a Última, estava encolhida dentro do poncho de lã, tremendo de frio, e ergueu os olhos assustados:

 — Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...— Os lábios tremiam, apesar do capuz cobrindo os cabelos. 
        
          — Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai foraO que aconteceu?  
         
         — Os olhos são azuis, os olhos da morte...   O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...—  A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis, levando-a para dentro.

        — Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom.— Enquanto falava, padre Bernardo a conduziu para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde uma caneca de louça, encheu-se de chá aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.

         Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:

— Eu vi o mal, ele tem olhos azuis...— A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.

No escuro


No escuro

Por Tânia Souza


Suores. Tremores. A respiração dificultada pela mistura rançosa de madeira e desinfetante. Sim, ele era um monstro oculto sob a cama aguardando sua vítima. Deleitando-se com pensamentos corrompidos. Nem sempre fora assim, porém, viciara-se no sabor amargo, no escuro inundando-o até sentir-se horrendo a ponto do acre na garganta parecer-lhe sangue.
Os pés da moça no quarto. O coração acelerado. A saia branca revelando-lhe a pureza de velhos dias. A pele febril de possibilidades e o suor escorrendo.  Um monstro e o trêmulo prazer de sê-lo.
Olívia suspirou. O jovem paciente do quarto 210 escondia-se. Podia ouvi-lo respirando pesadamente, os pés aparecendo sob a velha armação. Inclinou-se, estendeu as mãos e o chamou. Ele sorriu. As mãos esconderam a agulha pontiaguda e o rosto delicado nada revelou sobre os pensamentos recentes.
Naquela noite, o monstro já estava alimentado.

Anya, a Rainha das Sombras


Dedicado aos que partiram, entanto seguem conosco nas lembranças mais ternas

Ah, o amor, este sentimento tão cantado por poetas, sonho de noites solitárias e ilusão que acalenta vidas. Por amor, tantas espadas cantaram e o sangue se derramou; a vida se renova, as esperanças se tornam infindas. Por amor, a vida triunfa e a morte se concretiza. E por amor, a saga da humanidade se desenha em sonhos, tragédias e melodias. Mas esta não é apenas mais uma história de amor. As desventuras de Anya, A bela e Ulrti, O Valente, foram contadas por décadas no repouso das casas, à luz das fogueiras e nas longas noites dos viajantes. Duas criaturas condenadas ao mais profundo amor, duas crianças sonhadoras que vivenciaram um sentimento tão intenso e por ele, desafiaram os deuses por um amor que marcou a natureza, moldando os elementos com a sua intensidade, atravessando eras e espalhando pelo mundo a força desse sentimento. 

Por muitos anos, se algum viajante se aventurasse pela paisagem absurdamente montanhosa a Oeste de Alfrumtt, poderia ainda encontrá-la. Cravada entre as sombras gigantescas e seculares, via-se uma cabana quase oculta entre as rochas monumentais. Naquele cantinho escondido, as Donzelas Sonhadoras viveram por longo tempo. Diferente das outras mulheres, isoladas, porém respeitadas, essas criaturas místicas dançavam em noites mágicas, com cânticos inebriantes e uma profunda ligação com os elementos, eram guias, detentoras de um conhecimento mais antigo que poderiam recordar-se. Rainhas de luz, nasciam predestinas e nas montanhas, encontravam o seu destino. Dos mais simples moradores das vilas a reis e príncipes, a todos elas atendiam. Entanto, a paisagem já não era a mesma, cinzenta e desolada, cercada por árvores mortas, revelavam a passagem de um tenebroso inverno.

Enluarada




Ela se escondeu sob as cortinas, deixando que a noite costumeira a abraçasse, enquanto a televisão era desligada.. As sombras pareciam mover-se no quarto escuro, iluminado vagamente por uma fresta suave da luz que vinha do poste lá fora. Os passos subiram a escada. Ela continuou imóvel, os sons dos pés se afastando lentamente. Ouviu a porta do quarto ao lado se abrindo, para depois se fechar.Os passos pararam de súbito, frente à porta que interligava os aposentos e lá permaneceram por alguns instantes, quase podia sentir o olhar atravessando a madeira escura, tão intenso que ela estremeceu, contendo o desejo de se esconder. 

Apesar de o peito doer com a força do sangue acelerando o coração, do pavor que a imobilizara, resistiu. Os ponteiros do relógio eram então uníssonos com o coração frágil. Da janela, vislumbrava a noite oculta por nuvens. Era chegada a hora. Por muitas noites, aquelas mesmas nuvens vestiram a lua para lentamente devassá-la em sua perturbadora sedução. Inquietando, convidando. 

Atravessou a casa silenciosa, oculta nas sombras e, finalmente, a porta estava a sua frente. Mais alguns passos e estaria livre. Abriu a porta e estremeceu quando um leve rangido rompeu a noite. Lá no mundo, porta a frente, a lua surgia, lenta e definitivamente bela por detrás das nuvens. Alguma estrela tardia fazia vezes de sonho. O luar espalhava-se por todo lugar, inclusive dentro da casa umbrosa, estendendo-se sobre a soleira, insinuando-se por sua branca pele.

O Desafio das Cores


Tânia Souza

Entre os diversos mundos que existem no Universo da Fantasia, um era o mais assustador e temido por todos os seres: o Reino Umbroso. Neste mundo escuro vivia um rei muito poderoso, o Rei Medo. Um imperador tão antigo como o homem que vivia no mundo superior. O Rei sempre esteve presente na história da humanidade, seus impulsos guiavam a terra das sombras por caminhos inomináveis. As feras e monstros eram seus servos mais fiéis... O sonho da realeza era permanecer nos corações humanos ceifando qualquer esperança. Seus soldados possuíam poder imensurável, vampiros, lobisomens, homúnculos, grous, trolls, ogros, bruxas, entre outros, todos ousavam ir ao mundo superior a serviço do Rei. Mas nem sempre eram bem sucedidos.

             Pois havia no Reino Umbroso um povo de heróis, os Escritores Sombrios. De suas mentes e lápis escuros como a noite, surgiam lendas e histórias tenebrosas que eram lembradas por muitas eras na Terra dos Homens. Estas histórias assustavam. Mas quando o narrador dizia Fim, todos sabiam que o sol nasceria novamente. Todos podiam sentir que o universo era cheio de fantasia e sempre a luz surgiria. A eles, aos escritores, os Reis da Fantasia, no Equilíbrio de Todas as Coisas, delegaram a estas gentis criaturas o doce e doloroso ofício de dar vida ao medo, tecer as sombras para que todos pudessem saber que existiam e aprender a não se deixar dominar por elas. Pois o Rei Medo era poderoso, podia se infiltrar em corações desavisados e assim, criar mais soldados das sombras.

Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar.


       Ana. Um nome simples para uma garota comum, passos ecoando pelas ruas de uma cidade esfumaçada e suja. Ao mundo, a imagem de uma garota que vaga na noite escura e conta outra sina: menina de família, comportada. Ana se arriscando por lugares obscuros. A quase inocência costuma ser um atrativo interessante... Você me olha e vê uma moça que estudou, mas não muito; deduz que vou me casar com um bom rapaz e viver em tédio, que devo ser apenas mais uma Ana e, quem sabe um dia, esposa, mãe, avó. Talvez o que veja seja apenas uma boa menina, com vontade e desejo de se arriscar. Ana quase pecadora.
       Os seus olhos e os olhos do mundo não me vêem: não como uma andarilha; não essa criatura perversa, lasciva, sedenta de sangue e vingança; não como uma moça que se esconde nas sombras; não uma arma. Não como de fato sou.
       Mas é agosto. E devo pagar minha dívida. Agosto tem cheiro de sangue, de carne e desejos inconfessos. Quando agosto chega, desperto em minha sina ancestral. Sinto então os sonhos mais secretos de cada um e meus seios estremecem na ânsia de uma missão que outrora me causou tanta dor. Quando agosto chega, é hora de caçar.
       Meus saltos ecoam na calçada e os olhos mortiços da noite me seguem. Essa cidade tem cheiro de fuligem. Eu gosto do cheiro infecto destas ruas. Mas não devo ficar aqui por mais tempo.

Armadilha


Armadilha
Por Tânia Souza
Para Celly Borges e Luiz Poleto
Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:
— Conte, o que você fez?
No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:
— Um pouco de água...
Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.
— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.
Esta voz rouquenha que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças não parece minha.  Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar a ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.

Caserna em Sombras


 Caserna 
em 
Sombras

                                                                          Por Tânia Souza

Poderia ser mais um conto das casernas. Poderia...
Mas esta não é apenas uma destas histórias de sombras e medo, também de melancolia e sonhos desperdiçados. Por que lembrá-la se aconteceu há tantos anos? Não seria melhor deixá-la perdida nas memórias falhas dos homens e guardada pelos que repousam infinitamente? No entanto, há certas marcas na alma dos homens que não podem sumir, as histórias então as renovam para que a dor não seja esquecida, para que os mortos - os que dormem e os que andam - sejam honrados e toda injustiça, cobrada até o fim. 


Uma melodia ao alvorecer 

O sol nascera há pouco e podia-se ouvir o clarim chamando, o toque melancólico da alvorada marcava o início da manhã. Na casa de madeira, a luz invadia a janela e uma voz fina e doce cantarolava "... por mais terras que eu percorra não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá...”   a mulher no fogão, sem parar de virar os bolinhos que fritava, sorriu para o menino magro que cantava. O rosto miúdo se levantou e ele disse, olhos brilhantes: mãe, vou ser capitão. No Exército, aquele garoto marcado pela fome teria a chance de mudar uma história de pobreza e privações. O pai, um soldado desaparecido, a mãe na luta diária como lavadeira.
Muitos anos depois, a farda dobrada e engomada, os coturnos brilhantes: o sonho da carreira militar tornara-se real. O período de instruções foi difícil, a hierarquia militar, muitas vezes cruel, entretanto os meses de treinamento no mato forjaram o homem e ele superara o primeiro ano. Pedro Fagundes da Silva. Nome de guerra: Fagundes; já existiam muitos Silvas no quartel. Fora engajado e com a transferência para o Destacamento de São Miguel, o soldo aumentaria, as promoções viriam. Eu vou ser capitão, costumava repetir nos momentos mais difíceis. Essa era sua oração. A Canção do Expedicionário fora seu hino matinal por muitos anos, costumava ainda cantarolar os versos quando a solidão da maturidade perturbava o ar corado de um rosto de menino, onde a barba só se fizera ver pelo uso constante do barbeador.
Onde os anjos não moram

A Flor de U'zltrilix



A Flor de U'zltrilix
 Conto de Tânia Souza


 Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?
 Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.
 A pirâmide de Zh’olquyz permanece ainda, o triste ápice de uma civilização extinta. Banhada à luz de uma estrela dourada em seus últimos lamentos a cada volta insana do planeta L’zuli. Meus olhos reviram a paisagem e ao longo do caminho, voltam-se mais uma vez ao pináculo de outras eras. Tão próxima a pirâmide, a nave de meu pai. Ziurtiw enlouquecera antes da partida e tentara destruir a pirâmide onde os antigos repousavam. Sua punição com a morte foi um sinal de que a paz findara, apenas a nave permaneceu. Forjada nas longas viagens pelo mar de rocha líquida, paira sobre o deserto de areia, parecendo flutuar neste oceano de grãos, enquanto poucas torres escoram-se uma nas outras, resistindo ainda. Meus sensores brilham iridescentes: há vida na base de Zh’olquyz, um murmúrio animado oculto sob a nuvem de areia.  Aspiro em busca de coragem para descer e enfrentar meu destino. A mesma coragem de meu pai quando se negara a me deixar aqui.

Era uma vez, uma floresta...


Era uma vez, uma floresta...
Tânia Souza
     A respiração entrecortada absorvia aromas antigos. Não era a primeira vez que Leena passava por aquele caminho, a floresta era sua conhecida desde sempre, entretanto, dessa vez, a cada passo descobria sinais outrora nunca vistos. Seus passos mal tocavam o chão escorregadio, deslizando entre musgos e plantas mortas, enquanto os pensamentos voavam para o que deixara lá atrás.
    O suor frio queimava-lhe a pele entre os seios ofegantes, os olhos percorriam ansiosos a mata serrada, prevendo a noite que descia. Não ande sozinha... Não fale com estranhos... Mas o estranho não lhe parecera assim tão estranho. Não atravesse a floresta á noite... As vozes que sempre orientaram seus passos desde a infância repetiam-se como um caleidoscópio sombrio, mais que um aviso, uma maldição retumbando no mesmo compasso que o coração de Leena. Medo. O medo percorria-lhe o corpo, estremecendo-lhe os sentidos, ameaçando paralisar suas emoções! Havia sentido os olhos dele vasculhando-lhe a alma. Presa de um fascínio novo, ficara até que o silêncio das horas tardias chegasse e o estranho enfim lhe deixara partir.

A bela da noite e o valente Sirlônio


A BELA DA NOITE E O VALENTE SIRLÔNIO
Por Tânia Souza
Mas eita que tu é por demais de linda, heim princesa, quer sair da vida não? Pra uma gata como tu, eu dava pouso, comida e roupa lavada. Ficar nessa vidinha pra que, princesa? O que eu sei? Já andei pelo mundo, gata, vi coisa que tu nem sonha. Corpinho como esse, dava era muito material pra malandro e não falo de chamego bom não, tu sabe, as curvas que tem por fora, são boa por demais, mas as de dentro, valem é ouro. A parada acontece de verdade, to te falando.

 Foi lá pras bandas de Campo Grande. Conhece? Melhor, chega mais aqui, gatinha, que eu conto. Na época ainda era guri, nem conhecia esse mundão. Lembra a rodoviária velha, né. Praquelas bandas, tu manja os hotéis da área? Então, a maioria tá de porta fechando, o prédio virou um centro de lanches. As lojas do andar de cima? já era. Agora é rodoviária nova, só nos trinques, bonitona e longe pra cacete, ops, foi mal aí gatinha. Mas na época, aquilo era o fervo. Mulherada, cachaça e se o cabra quisesse, dava pra chapar legal. Tio Sirlônio não era santo, pois. Negocio feito, partiu pros furdunço. Saca só o nome da casa onde ele foi parar: Bela da Noite.

 Mulher perfumosa, uísque importado e preço dobrado do que cobravam as damas da rua. Mas o tio queria coisa fina. Era como eu, o tio, não dava trela pra qualquer uma não. Mulher tinha quer ser feito tu, gatinha dengosa. Tinha mulher nada, o tio, veio em nome do patrão.

 Então, noite ia alta e tava difícil achar uma mulher que enchesse uma cama, como ele queria. Até que ela apareceu. Quando viu a princesa, de cara notou que era biscoito fino, não sabia se teria grana para tanto não. Mas o aroma da moça era bom por demais, e o tio não era de resistir aos tranco de uma morena. Negócio arranjado e ela mesma oferecia o local, não carecia de ser no hotel dele não. Mas que cheiro bom que tu tem, heim gata. Pois, tu sabe né, na noite tem esses riscos sim. Quartinho era limpo e a moça, cheia dos dengos. Eita que tio suspirou largado com a festa que teria. Se teve? Ara, que os homem da minha casa não negam raça não, minha flor, que tu já viu ainda a pouco que a herança corre no sangue. O sacode foi por tudo que parte, incluso na banheira debaixo da agua morninha; serviço foi tão bem feito que a moça nem queria cobrar a noitada, mas tio insistiu, e acabou por pousar no hotel com a princesa. Tio Sirlonio não sacou que o doce, tava era doce demais.

Bebeu das mãos da moça uma tal poção revigorante “pra acordar animado pra ela”, a dondoca soprou. Daí, já viu né, sente só o aroma do embuste. Era arapuca das braba. Quando tio acordou, os músculos ainda reclamando dos exercício noturno, primeiro sorriu de gosto, depois foi sentindo o frio...

Tava na cama com a mocinha não, tava é na banheira encardida, gelo por tudo que lado e dor espalhada na carcaça moída. Bem no azulejo mofado, um bilhete das letras redonda e caprichada, mostrava um numero e dizia: “liga agora, se quer viver. Teu rim vai ganhar outro corpo, Sirlonio, meu bem.”

No hospital, falaram que ele teve sorte. A mocinha devia de te gostado dele, pois lhe levou só um dos rins. Fosse como os outros, tava é morto da silva. Pois, e é por isso que só levo meus chamegos pra casa, nada de hotel, princesa. Aqui tem perigo não, prezo por demais meu rim e aprendi a lição.

O tio? Passou bem com um rim só, e nunca esqueceu da morena. Queria o rim de volta, nada, queria era o cheiro bom da princesa que colou nele e além do rim, levou-lhe foi o juízo.

Sumiu no mundo, o tio. Dizem que achou a morena, sei não.

Agora, chega de conversa, minha linda, que o sono ta brabo. Dorme ai, gata, amanhã te dou uma carona. E já sabe, se quiser largar dessa lida, coração aqui é bruto, mas pra ti, entrego sem dó.

 

...

 

Madrugada, um carro parou em frente a casa silenciosa, um homem e uma moça abriram o portãozinho sem muito ruído. Ela levava nas mãos uma bolsinha de festa, e ele, uma maleta.

Sirlonio Gaudino e Pietra Galdino encerravam mais uma noitada. A motorista, morena bonita que só, apesar da idade marcando a face, sorriu quando pai e filha entraram no carro. Aquele Sirlonio era cabra persistente mesmo, tanto procurou que achou a morena e o negócio da família prosperava nos anos.

Pietra suspirou. O coração do moço, entregue de tão boa fé, até que teria boa serventia no mercado. Mas o sangue do pai correndo nas mesmas veias... E fora tão afoito que lhe dera pena servir-se de todos os órgãos.

Bem que lhe daria muito gosto rever o primo. Se ele ligasse a tempo, um rim não faria tanta falta assim...


Fim

Aroma de estrelas


Aroma de estrelas
Por Tânia Souza



Tudo é cinza e frio. Meus passos ecoam neste imenso deserto. Por onde olho, vejo apenas vastidão de pedras e cavernas. Em uma delas, resido. Não se trata de uma caverna qualquer. Foi adaptada por mim. Contem o que necessito para permanecer em ordem e funcionando. Aqui, os dias e as noites são longos. Não se ouve o lamento de animais, não se ouve sons, ruídos, não se vê movimento algum além de poeira cósmica ocasional. Estamos no planeta Sunriand. Na verdade, um planetóide de ricos minérios, mas instável para a sobrevivência humana. Não há água em Sunriand. Não há comida. Não há vida. Apenas eu e a carcaça de outras máquinas que deixaram de funcionar.

Um nome... Sim, eu tive um nome, mas ele se esvai com outras lembranças e não consigo buscá-lo nos desenhos do passado. Outrora fui cidadã, hoje sou propriedade do estado, sou uma prisioneira. Estou cumprindo pena em Sunriand. Não há absolutamente ninguém aqui. Teoricamente, também não estou aqui. 


A Liga da Moral me condenou a cinco anos de trabalho nas minas deste planetóide deserto. O corpo que fora meu permanece nos laboratórios da LM. Entretanto, minha mente fervilha. Não sei quanto tempo posso resistir. Inicialmente eu não estava só, mas poucos sobreviveram à desolação. A solidão tem um efeito devastador na alma humana. Entretanto, a cada momento que a sombra toma conta desse imenso deserto num simulacro de noite, meus sonhos revivem. Quando a claridade vem, trabalho sem cansaço. Ainda que eu não quisesse, a máquina está ligada a mim e não posso combatê-la. Minha pena é a solidão.

Filho da escuridão


Não deixe de conferir, no blog Fantasia & Terror, do meu amigo , o conto  Sangue Maldito ,  os primeiros instantes de sombra e dor deste filho da escuridão. 


Kjærlighet og smerte - Edvard Munch




Filho da escuridão

Por Tânia Souza


Nasci no dia de minha morte!
Ah, nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?
Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse.  A febre corroia-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias. 
       Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semi-consciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.
A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.   
Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.
Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.
Desde então eu não sabia, mas não muito longe dali, do alto de uma torre, uma criatura de trevas e horror puro sorriu com ferocidade ao ouvir-me gritar. Estava feito. Era hora de seu legado, da sua herança ser transmitida. Mas não nessa noite, o tempo seria o seu aliado. Seus olhos avermelhados luziram, mas quando viram ao longe um movimento, por algum tempo, esqueceu-me, pois era hora da caça. Não havia espaço para um recém criado quando a fome e o instinto imperam.
Na velha casa, eu tive medo, não o medo comum dos mortais e sim, medo mesclado a necessidade de sobrevivência, quando um cheiro pungente despertou minha atenção, era a fome estava corroendo meu corpo. As malditas lembranças surgiram. Ah, onde ela estaria? Ela que com voz suave afastara meu medo e mais de uma vez, me deu a vida? “Beba, meu filho. Sorva meu sangue e viva. Eu já estou morta, mas você pode viver. Uma vida maldita, mas ainda assim, uma vida.” E eu bebi. Naquele instante o garoto foi embora e com ele toda inocência.
Podia ouvir os cães em volta da casa. Ganidos baixos e chorosos, de fome e pavor indescritível frente à lembrança de algo que desconheciam. Então, eu a vi. Na sala, a um canto, o corpo dela jazia.  Toquei com cuidado a face sem vida. Se pudesse, choraria, mas minhas lágrimas haviam secado, não, a dor de um monstro não suportaria mais ser expressa em lágrimas. Ergui-a nos braços sem esforço algum, ainda que meu corpo fosse miúdo, uma força sobrenatural me animava e a levei para o quarto. Foi a última vez que vi minha mãe, depositei seu corpo sem vida sobre o leito e fechei a porta.
Ela seria vingada.

Estilhaços



Estilhaços


Cacos. Os pedaços do espelho estão sujos, marcado pelo tempo. Assim como o rosto refletido.  A mulher não se reconhece na nudez do reflexo. Cabelos oleosos caem, ralos e desordenados, ocultando seus traços. Olhos grandes, circundados por uma sombra escura, não escondem: ela tem medo. E cansaço. 

Quando ergue as mãos e toca os longos fios, eles se soltam e caem por entre os seus dedos. Ela sorri com tristeza, a mão desce e com suavidade passeia por onde antes existiam curvas e sente os ossos pontiagudos, parecem perfurar a pele de dentro para fora.

Um ruído interrompe seus devaneios e um rato minúsculo percorre o aposento. Fome, sim. Forças para caçar, não. Um desperdício, já não havia tantos ratos na velha habitação. O camundongo se foi entre os detritos.

Ela sabe que é fraca. Sempre o soube. Fraca demais para o combate, fraca demais para desistir. Mas a face refletida nos cacos do espelho está decidida. Uma faca do mais puro aço reflete a luminosidade que vem lá de fora. O aço brilha como seus olhos. Suavemente, ela encosta a lâmina nos lábios, ainda atenta ao espelho. Um beijo gelado,  murmura. E ri.

“Essa gracinha pode durar muitos e muitos anos. E salvar a sua vida, meu amor. Limpeza, amore, é preciso lavar com cuidado, secar, não deixar em contato com outros metais e nunca, nunca expor ao fogo.”

Ela gosta do contato frio contra o mormaço em sua pele. Sente a lâmina afiada e, de olhos fechados, imagina seu sangue escorrendo sobre o aço com delicadeza. Os dedos adivinham o cabo de marfim, a parte serrilhada, e a unha raspa a ponta perfurante. Linda! Letal! Riu novamente.

Houve um tempo que rir era comum. Como quando ouviu pela primeira vez falar no fim. O fim dos tempos, o fim do mundo. Depois, toda a alegria se fora.

Decidida, a moça ergueu a faca. As longas mechas caem pelo chão. Os cabelos vão sendo cortados sem rumo até ficarem mais ralos. Não fossem os seios miúdos, poderia ser tomada por um garoto. Mas é justamente o que ela deseja.

Ela nunca acreditara no fim. E estava certa. O fim realmente não havia chegado. Não para ela.  É uma sobrevivente, pois para desistir, também é preciso coragem. E isso, a garota nos cacos do espelho não tem.

Fraca demais para desistir
Fraca demais para morrer...

E eles vieram com o amanhecer - Tânia Souza


E eles vieram com o amanhecer

Tânia Souza

 

Em memória de Henry Evaristo

 

O passado está cheio de fantasmas e monstros reais. Desde a pré-história o homem vive cercado por um mundo que esporadicamente lhe propicia vislumbres de uma natureza que não é a sua e, para além disso, de uma realidade que é muito diversa da que lhe é familiar . (Henry Evaristo – A invasão de Santarez)

 

           Comarca de Bela Vista, 29 de Setembro de 1872

 

Ao muy ilustre amigo Taunay,

 

Estimo que estejas bem. Eis que, enfim, tenho a coragem para lhe enviar estas escritas quase arquivadas pelo tempo. Jamais os homens que compartilham a morte e a vida devem ser esquecidos por seus iguais. Além dos anos de treinamento militar, o amor pelo escrever e os desgostos da guerra nos uniram. No entanto, a angústia e o pesar nos afastaram. Nos últimos dias da batalha, enquanto seguiam até Laguna, como bem sabe, tomei outros caminhos; caminhos que nem com a guerra, poderia ter previsto. Mesmo temendo seu julgamento, preciso compartilhar o que tenho visto e vivido nestas terras. Mesmo sabendo que me julgarás insano.  Ah, a guerra. Os heróis. As vítimas. Os vitoriosos.

E os desertores...

Por seis longos anos, a morte e a carnificina espreitaram as terras devastadas. E estávamos lá. Conhece minhas motivações. Em busca de aventura e tomado de admiração pela vida na caserna, ingressei nas forças armadas e fiz-me tenente de artilharia, mas, no frenesi da primeira batalha, descobri que não fui talhado para a luta. Deus, misericordioso, bem sabe que mil vezes eu morreria em vez de empunhar a arma, no entanto a sorte, ou o mais nefando azar, estiveram sempre comigo, preservando uma vida que já não merecia ver o sol nascer e se pôr.  Uma vida que ainda hoje, espreita o horror lá fora e teme o amanhecer.

As lembranças, ah, elas voltam e o remorso me atinge constantemente. Preciso parar... preciso de ar. Parece-me que ouço o ribombar dos canhões. A fumaça...

(...)

Creio que o remorso começou a torturar-me constantemente desde quando, pela primeira vez, repousei o corpo de um companheiro morto nas águas transparentes de uma nascente. Deve lembrar-se de quando deitávamos no leito do rio cadáveres dos que pereciam tomados pela peste e assim, a doença chegaria até as populações ribeirinhas. Meu Deus, e eu, que no passado pensara em tornar-me médico para salvar vidas, via-me, constantemente, buscando formas de tomá-las. Meu bom amigo Antônio, consumido pela febre e varíola, o corpo inchado e tomado por pústulas... ah, sua alma merecia um enterro cristão e, no entanto, dei-lhe as águas como última morada e a imagem do corpo sendo levado pelo rio atormentou-me e desde então, meus sonhos foram invadidos por seus olhos negros e tristes, enquanto apontava-me a direção da correnteza. Ainda assim, convivi em certo equilíbrio com o remorso; eu me tornara, a despeito de uma vocação vazia, um homem de armas. Os mortos prosseguiam e a podridão das águas turvas tornara-se comum. Por todos os lados boiavam brasileiros, argentinos, paraguaios... Mesmo mortos, também lutavam enquanto a decomposição que explodia sob o calor do sol se espalhava.

Mas nada, nada me prepararia para a batalha de Acosta Ñu.

Os gritos. As súplicas. E as espadas... Acosta Ñu não deveria ter acontecido, caro amigo, e jamais seremos perdoados por isso. O Conde D’Eu parecia tomado por uma febre terçã... e a piedade que talvez um dia tenha habitado seu coração fora embora com a guerra. Bem sei, havia canhões, alguns soldados da infantaria... mas as crianças... não as crianças.

Ainda ontem, despertei de um pesadelo sombrio, mas acordar não significa estar livre. Sob as sombras da noite, aqueles olhos vagam em meu quarto e mesmo acordado, ainda posso ouvir os lamentos e o som dos sabres caiando sobre pescoços infantes.

Mas, há mais, muito mais. Foi em Acosta Ñu que Os senti pela vez primeira. Enquanto guerreávamos, o cheiro da morte e dor empesteara os ares como nunca dantes aquelas terras viram.  A fome de sangue, a dor dos que matavam e morriam sem saber o porquê. Ali, no fervor pútrido da batalha, o ar espalhando o odor da carne queimada das mães e dos sobreviventes, ali em meio ao vapor e as dores da luta, conheci o inferno. O reino do maligno estava entre nós.

E um mal mais antigo que o homem, deleitando-se com o sangue dos inocentes, renascia.

(...)

 

Acosta Ñu. Todas aquelas crianças, Taunay, como tivemos coragem? Ainda me lembro de um pequenino, implorando piedade, agarrado as pernas do comandante.  Alguns segurando as barras de madeira como se fossem armas. Brincando de guerra, os rostos miúdos pintados a carvão. O grito dos que pereciam consumidos pelas chamas e as espadas certeiras sobre pescoços dos meninos encolhidos em seus próprios braços. E então, estava acabado. Nem feridos, nem sobreviventes, todos deveriam ser mortos e os que a espada e as chamas não devoraram, a fome, a dor e a privação o fariam. Jamais a guerra deixou minh’alma. E finalmente, saberá o que me levou para outros caminhos, distante de Laguna.

Quando o alto comando partiu, eu fiquei nas cercanias de Acosta Ñu. Vi quando o silêncio chegou, espantando o cheiro de morte putrefação. A dor foi então tão opressiva que muitos homens choraram; os guaicurus, estes valentes que ali estiveram conosco entoaram cantos sagrados, enquanto outros soldados simplesmente fugiram, perdidos pela mata.  Não, não há gloria na dor.

Perseguidos por aquele silêncio implacável que impedia as brisas e calava os pássaros, voltamos para Bela Vista. Conosco, iam alguns feridos e a travessia seria penosa. O pequeno destacamento estremecia de pavor nas noites escuras, mas era durante o dia que o mal se deleitava. A luz feria nossos olhos e ocasionalmente o delírio tomava forma. A febre e o calor da batalha deixaram-me enfermiço, e muitas vezes, parecia-me que criaturas transparentes como o dia seguiam nossos passos a beira do rio. A água escasseava e todas as nascentes eram suspeitas. Como deve imaginar, a razão aos poucos nos abandonava. A mata parecia espiar-nos e o temor da ira de Deus me torturava.

Foi quando os mortos começaram a despertar.  

(...)

 

Deve estar espantando com o que leu até aqui, mesmo eu, que escrevo a intervalos regulares, espanto-me com minhas palavras. Sim, é verdade que os mortos caminharam. E a calma com que escrevo é o fruto de uma alma perturbada demais para expor a febre que a consumiu e porque não há palavras que descrevam o horror que presenciamos. Havia o calor sufocante. Os insetos nos devoravam e a fumaça que deixávamos para trás insistia em nos seguir.  Transpirávamos e o cheiro da podridão era nossa companhia constante nos dias quentes e nas noites úmidas.

Quando aconteceu pela primeira vez, os nervos doentios e irritadiços já me dominavam. Foi à beira de um riacho alimentado pela chuva, em meio a vários corpos que ladeavam a margem, que ela se levantou. Primeiro, foi o silêncio, os raros pássaros desapareceram e mesmo o vento, calou-se. Apenas um longo e absurdo silêncio.

Das águas escuras e cobertas por moscas a criança ergueu-se, espantando os insetos que há pouco devoravam sua carne. Os cabelos e o corpo estavam cobertos por sangue e barro endurecido, os olhos grandes e vazios destacavam-se em meio à sujeira. Quase como que flutuando, ela se foi. Alguns dos nossos fugiram nesse dia, embrenharam-se nas matas e somente seus gritos de pavor vinham a nós, como se atacados por algo horrível demais para nossa imaginação conceber. Agarrei-me a Deus e atirei nela, mas logo percebi ser inútil. O corpo frágil agitou-se com as balas, mas não se deteve. E em meio ao pavor, aos gritos e a confusão dos cavalos e mulas de carga que se dispersavam, lembrei-me dos olhos tristes de António, apontando-me as águas.

E de algum modo, eu soube de nossa culpa.

Confesso, neste momento, apenas a lembrança daquele pavor me envolve e desejo parar de escrever, sair, esquecer.

(...)

 

Novamente, lhe escrevo. Como lhe disse, desejo fugir, mas isso já não me é permitido. Firmo o ouvido. Sim, posso ouvir os pássaros. Estão por toda parte, não apenas nas árvores, mas também nas gaiolas onde os guardo. A minha sentinela. Com o coração mais calmo, prossigo.

Eles vieram com a força das águas, despertos pelo sabor do sangue derramado. A criança foi a primeira, como se os demônios soubessem e gargalhassem do pavor e do remorso que me atingia. Mas depois, outros seguiam com ela. Corpos quase destruídos erguiam-se e seguiam para a mata. Já não dormíamos e a certeza de que em breve voltariam para nos matar nos guiava. O maligno enfim estaria reinando na terra? Estávamos todos mortos e ali, o inferno de nossa eternidade.

Mas a verdade é que os mortos estavam sendo despertados e rastejavam movidos por uma força desconhecida. Mas por que e por quem, isso ainda não sabíamos. Para tentar manter nossa afectada sanidade, nos convencíamos de que fora um embuste de sobreviventes em busca de proteção na mata. A viagem tornara-se cada vez mais penosa, havia fome e feridos entre nós, além do horror indizível do que presenciávamos.

            Até que um terror maior sobreveio.

 (...)

Talvez agora possa entender, meu valoroso amigo, as razões deste que vos fala. Algumas ações são tão hediondas que o homem comum não poderia jamais presenciar. Tampouco realizar sem mutilar-se eternamente. E se sobrevivo até aqui, foi para expiar nossos atos mais pecaminosos. Nossos crimes da guerra.

Numa manhã ensolarada, cavalgávamos quando, de repente, os animais pararam. O silêncio tornou-se quase concreto e a angústia feria-nos.

E então, eles vieram.

Senti, em meio ao mormaço sufocante, a força do ar movendo-se junto a mim, e ao meu lado, um soldado gritou. A garganta dilacerada pode dentes invisíveis, deixou a mostra, por instantes, os órgãos internos, e o sangue espalhou-se no ar antes que toda carne e ossos de que era feito desaparecerem, mastigadas furiosamente em poucos segundos.

Demônios. Demônios sem forma, demônios invisíveis, demônios devoradores de homens e de almas; o inferno finalmente viera se estabelecer na terra. Preparei-me para rezar quando um som melancólico de um chifre de boi sendo soprado invadiu a planície e um índio guaicuru, montando na lateral do seu cavalo como tão bem faziam nos ataques, arrancou-me do estupor. Sua lança feriu a coisa disforme que já devorava meu cavalo. Cai no chão úmido e ele jogou um poncho sobre mim.

Três de nós já haviam perecido quando o guaicuru gritou que nos cobríssemos até que eles se fossem. Eu reconheci o guerreiro e tomado pelo pavor, obedeci. Tolo, sentia-me como as crianças que há poucos dias, encolhidas nos próprios braços, aguardavam a morte, mas, mais uma vez, ela não veio a mim. Ali, no escuro protetor do tecido úmido e malcheiroso, ouvi o grito dos que fugiam desesperados. Enrolado na escuridão morna, sentindo meu corpo desidratar-se de calor e medo, devo ter perdido os sentidos. Despertei com os empurrões do índio.

A noite viera e com ela, uma trégua. O que quer que nos perseguira naqueles dias não esperaria mais. A guerra não havia terminado.

O valente guaicuru partiu ainda naquela noite. Antes de ir, chamou a mim e a mais alguns dos companheiros que sobreviveram e disse-nos que temêssemos sempre o silêncio. E os dias. Que a noite, enquanto houvesse sombra, eles não viriam. E que buscássemos na escuridão, a proteção;

Quis saber quem eram, mas nunca compreendi exatamente o que me disse o jovem. Todavia, entendi que, quando o sangue dos inocentes desceu pelas planícies do cerrado, embriagou as nascentes e cobriu de vergonha os morros e cerros, desceu também até as profundas cavernas e despertou os “nandí-vevê-co’ê,” ou "o vazio que pode voar ao amanhecer”. Estas criaturas tão antigas eram velhas conhecidas dos índios que, mesmo em tempos de paz, evitavam as cavernas sagradas para não despertá-las, buscavam em símbolos herméticos, afastar o mal. Um horror sem nome que os anos adormeceram, no entanto, as correntezas levaram, por rios subterrâneos e caminhos ocultos, o cheiro da morte até eles e por isso, voltaram. De alguma forma, ele pensava em reunir os sábios das tribos para detê-las. O som do chifre de ossos poderia ser um caminho, assim como a bênção da escuridão e as complicadas geometrias de sua tribo.

Fiz do poncho a minha arma e proteção. Pensava talvez que fosse uma ilusão, ainda assim, agarrava-me a escuridão protetora. Naquela última viagem, perdemos mais companheiros a cada ataque e, quando a noite chegava, mais um desertava até que, por fim, apenas eu e quatro feridos chegamos ao forte de Bela Vista. Parece que vagamos por muito tempo. Solano Lopez já havia perecido, mas eu sabia que a guerra não havia acabado. Chamaram-nos de loucos. Doentes da guerra. Desertores. E por algum tempo, temi que estivessem com a razão, desejei que estivessem com a razão.

Ah, a guerra! E o poder do seu chamado.

Para os amigos e parentes eu estava perdido pelos horrores da Guerra da Tríplice Aliança. E eles tinham razão, caro Taunay, o que me restou da sanidade, estraçalhou-se com os fatos que sobrevieram-me. Escrevo-lhe, pois sei que o ilustre amigo, sabedor dos horrores que vivemos, poderá compreender minha dor. Quando enfim o conflito foi dado como encerrado, não pude partir.

Acosta Ñu...

O silêncio que precede os “nandí-vevê-co’ê”...

As crianças...

Não, era meu dever ficar. Em um pequeno rancho nas cercanias de Bela Vista, estabeleci moradia e dediquei-me então, a um projeto particular. Bem próximo de minhas terras, uma lagoa azul, onde desembocam minúsculas cachoeiras de rara e azul beleza. Para acalmar os meus, disse que me recolhia para escrever as memórias da guerra.

            Pensaram então que eu estava em paz, mas a inquietude tem sido minha companheira constante. Agora mesmo, enquanto escrevo, de vez em quando estremeço e suspeito de que há algo lá fora, rondando, espiando, destruindo-me. Não é a noite que eu temo. É o dia que me apavora, o sol, o calor das manhãs iluminadas me enche de pavor.  Por que sei o que a luz pode trazer.

(...)

 

Os guaicurus vieram ter comigo. Eu caminhava pelos campos, colhendo guavira sempre acompanhado pelo poncho quando ouvi o tropel dos guerreiros montados. Mesmo após tantos anos, me impressiona o porte orgulhoso e a forma como montam de lado, empunhando as lanças pontiagudas e letais. Estremeci ao vê-los, enquanto que na guerra, tê-los ao nosso lado salvou-nos muitas vezes a vida, seus mistérios seguem sendo uma barreira. Eles sabem o que vi e o que desejo. São os guardiões e devem selar os portões.

Mas enquanto os que voam ao amanhecer temerem o escuro, haverá alguma segurança. Há algo que você não sabe, caro amigo. Não apenas por remorso que escolhi estas terras perdidas. As cavernas estão por perto, junto às nascentes cristalinas, sei por onde eles passam. Ousei, acompanhado pelos valentes guaicurus, nas noites enluaradas, espiar as águas e córregos. A boca horrenda de uma delas, quase oculta pela mata, moveu-se sob o luar e eu pude enfim vê-los.

Não é apenas o nome deles que me é difícil pronunciar. Também a aparência que o luar revelou. As asas parecem dilaceradas e pontas agudas saem das unhas e das membranas que as unem. A pele enrugada que os cobrem é translúcida, e todos eles parecem dotados de garras mortais. Mas são os dentes o horror mais indescritível e letal. Não vi olhos, apenas o vazio e as fileiras de dentes circulares na face disforme. O silêncio que os precede é como um véu de névoas encobrindo meus sentidos e a despeito dos dias claros, o escuro da minha alma ameaça vencer-me. Nem sempre sei se as sombras que me envolvem vêm lá de fora ou saem de minha alma impura, corroída pela dor e pelo remorso.

Eles se alimentam de carne, putrefata ou viva.  Entendi enfim os mortos que caminhavam, serviram de alimento enquanto recuperavam as forças. E fomentavam nosso pavor. Eram guiados por eles na segurança que a luz do sol lhes trazia. E também do medo, do pavor e do remorso se alimentam. A cada dia, estão mais fortes e somos todos culpados. Por isso, precisam ser detidos, pois sua força aumenta, não sei se de origem sobrenatural ou de alguma raça quase extinta, eles espreitaram durante séculos e mais uma vez, andam entre nós. Sei que aos poucos, deixarão de temer a noite e então, nada mais poderá detê-los. Sei porque uma noite dessas, eles vieram. Sob um céu salpicado de estrelas, eu repousava na rede, espantando alguns mosquitos, quando o silêncio me assombrou de súbito. Nem mesmo a brisa ou o menor dos insetos ousa interrompê-los. Ainda não ousaram se aproximar, mas o dia está perto. Um arrepio de puro horror me assaltou, não havia nada lá fora além de um silêncio profundo.

           (...)

 

Finalmente, o fizemos.

Explodimos a entrada das cavernas. Os guerreiros montados já não trazem a sabedoria dos mais antigos, mas alguns rituais e armas que guardo da batalha poderiam feri-los, assustá-los talvez a ponto de recuarem para as profundezas... mas selar as cavernas e afastar os tolos que ousarem se aproximar pode ser um caminho.

Por algum tempo, estamos em paz. Creio firmemente que somente o silêncio das armas e o fim das guerras poderiam detê-los. Enquanto houver um campo de batalha e mortos, enquanto o sangue dos inocentes correr pelas planícies, o vazio que voa ao amanhecer encontrará uma forma de voltar.

Não espero que acredite, mas aguardo o poder da dúvida. E que estas palavras sirvam de alerta e testemunho, caso eles voltem.

Aos poucos, eu durmo e uma rotina suave me convida a reescrever meus caminhos. As crianças ainda habitam meus sonhos e lamentam ao meu redor em noites quentes e abafadas. E do horror no coração dos homens não esquecerei. Tampouco, dos seres que as sombras guardam, pois sei que, em algum lugar sob meus pés, eles dormem.

E um dia, podem despertar.

(...)