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Dom


Marcelo Paschoalin
               
Dom

Tânia Souza      
    
            Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. A garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir.  A jovem, conhecida por muitos como a Última, estava encolhida dentro do poncho de lã, tremendo de frio, e ergueu os olhos assustados:

 — Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...— Os lábios tremiam, apesar do capuz cobrindo os cabelos. 
        
          — Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai foraO que aconteceu?  
         
         — Os olhos são azuis, os olhos da morte...   O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...—  A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis, levando-a para dentro.

        — Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom.— Enquanto falava, padre Bernardo a conduziu para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde uma caneca de louça, encheu-se de chá aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.

         Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:

— Eu vi o mal, ele tem olhos azuis...— A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.