Ela se escondeu sob as cortinas, deixando que a noite costumeira a abraçasse, enquanto a televisão era desligada.. As sombras pareciam mover-se no quarto escuro, iluminado vagamente por uma fresta suave da luz que vinha do poste lá fora. Os passos subiram a escada. Ela continuou imóvel, os sons dos pés se afastando lentamente. Ouviu a porta do quarto ao lado se abrindo, para depois se fechar.Os passos pararam de súbito, frente à porta que interligava os aposentos e lá permaneceram por alguns instantes, quase podia sentir o olhar atravessando a madeira escura, tão intenso que ela estremeceu, contendo o desejo de se esconder.
Apesar de o peito doer com a força do sangue acelerando o coração, do pavor que a imobilizara, resistiu. Os ponteiros do relógio eram então uníssonos com o coração frágil. Da janela, vislumbrava a noite oculta por nuvens. Era chegada a hora. Por muitas noites, aquelas mesmas nuvens vestiram a lua para lentamente devassá-la em sua perturbadora sedução. Inquietando, convidando.
Atravessou a casa silenciosa, oculta nas sombras e, finalmente, a porta estava a sua frente. Mais alguns passos e estaria livre. Abriu a porta e estremeceu quando um leve rangido rompeu a noite. Lá no mundo, porta a frente, a lua surgia, lenta e definitivamente bela por detrás das nuvens. Alguma estrela tardia fazia vezes de sonho. O luar espalhava-se por todo lugar, inclusive dentro da casa umbrosa, estendendo-se sobre a soleira, insinuando-se por sua branca pele.
