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Que serventia?

 


apalpa
os desvãos da memória

desvenda
devagar)
as garatujas da terra

torna palavra
musgo moldura das eras

estamos no abismo dos dias
há que se ver
sementes de quês,
habitam o Lá

não são tempos de pétalas
é preciso
um nascedouro de rochas
na pele rígida e fria das pedras
coração - encouraçar

desfia da paisagem
esse fio de distopia
trans-bordando realidade

bêbeda entropia
amniotica maresia

há que se encontrar coragem
desponta logo já - um novo dia

coragem
há que se encontrar

que vem logo ali
um novo dia

engole depressa
teu choro
tua poesia

que serventia?

Tânia Souza

#mulheriodasletras
#poesia
#literaturaMS

Poética





 

ou do que murmuram meus ossos...


Escrevo

Escrevo como quem tem febre, como quem ri, como quem chora; 
Escrevo como quem tem fome, tem sede, como quem chega e também vai se embora; 
Escrevo como quem espera, como quem corre, como quem cora, como quem tem vergonha, gagueja, gargalha e se atrapalha. 
Escrevo como quem tem sono, tem sonhos, tem lágrimas e nunca teve catapora.
Escrevo como quem pede, manda e também implora. 
Escrevo como quem tem pena, tem orgulho, tem medo, tem raiva, e também amor que dilacera;
Escrevo bem, escrevo mal, escrevo a qualquer hora e até mesmo quando me faltam acentos, vírgulas e palavras.
Escrevo com dor na garganta, com sono, com preguiça, com vontade, com mentiras e verdades.
Escrevo até quando não escrevo, como quem descobre reticências pela vida afora...

E quando vejo, escrevo enfim porque já me resta outra opção além de escrever escrever e escrever... deve ser porque quando escrevo, eu posso ser.


Tânia Souza

Instinto

Instinto 

Tânia Souza

Era um vampiro clássico. Nascera em um ano medievo qualquer e desde então, entre caminhos de sombras e lamentos, fizera seu destino. Andar suave. Um dos predadores mais perigosos do mundo velho, porquanto refinado e, sob o fino verniz do charme e da elegância, ardia em lasciva sedução para então, desferir o golpe, o ataque letal consumindo em suspiros uma suave vítima. Moçoilas, órfãos desamparados, mancebos imprudentes. Quando a caça humana se tornava escassa, caçava entre os animais inferiores, mas sofria um resquício de fome, gostava da essência febril, dilacerar a carne tenra e o frenesi da vida esvaindo-se ao seu beijo frio.

II

Assim fora por muitos séculos de morte e eis que a noite o encontra caminhando às escuras. Em Londres, entre vielas sombrias, vultos obscuros e um cheiro rançoso de morte, ele caminhava. E sentia a força da fome. Muita fome. No entanto, a fera oculta rugia, pois sua sede não dependia apenas dele para ser saciada.

Por varias noites sentira as agulhadas ferinas da ânsia, da sede, mas nada pudera satisfazê-lo. No entanto, aquela noite seria diferente. Os passos de uma jovem arfante ecoavam, estraçalhando o silêncio e, por alguns instantes, os olhos dela voltavam-se temerosos ao seu redor. Sentia a presença maléfica do caçador no negrume da noite e a densidade do medo a sufocava.


as palavras

entre o azul e o silêncio: 
as palavras... 
e no azulêncio de suas (in)concretas vias, 
me perder, me encontrar; 
enfim existir, ou de vez, inexistir



palavras

era estranhamente triste
o voo daquelas palavras
estremecido 

voo interrompido
e frente ao abismo de nada
                             oscilavam
                      resfolegavam
    
letras vagas
                   e vãs

palavra temporã
 
indecisa entre-ser
ou simplesmente
in-existir
            cair
                 cair
                      re    
                          (s)
                              surgir

eram estranhamente tristes
aquelas vazias palavras
pre-maturas
quase rabiscadas
textura inexata
e ela frente a elas

e assim foi
por eras

estranhas e tristes
elas eram,
e ela
também o era

In...Sana-me?


Toca-me liqüifeita Língua 

Em dedos frágeis vem roçar lasciva
Depois devassa triparte-se

Língua essa em caleidoscópios
Girando verbos em neológicos bramidos
Quando já calados todos os versos

Em rubra face, de poesis peço: In...Sana-me?

Mas sutis amplexos vão tingindo à tarde...


Rememorandum


Um: desabrochar ao sol feito poesia
       Dois: desvendar as primeiras nuvens
               Três: não temer os mistérios do azul

Quatro: poupar um pouquinho da alma 

          Cinco: ver em sombras resquícios de luz
                Seis: sorrir e ser simples como o orvalho

Sete: dançar ao menos uma vez ao mês
        Oito: se preciso, saber chorar na chuva
                 Nove: repensar sempre e sem pressa

Dez:
 lambuzar-se de beijos e sorvetes
             Onze
respirar das formigas a força
                       Doze: doar-se sem razão ou meta

Treze: preparar-se sem medo para a morte
            Catorze: respirar no sol a luz de cada dia
                         Quinze: sorver da vida aromas de alegria!

Poema intertextual inspirado em “Memorandum” de Mário Benedetti.

de(s)palavras de um dia qualquer


de(s)palavras de um dia qualquer


ah, esses dias quebradiços
me arrastam em cacos pelos corredores
de um tédio tão antigo
quanto a alma que perdi

tatuada em mim a impressão
de todas as palavras ditas
tão vazias de sentido
e vãs tantas
talvez melhor caladas,
embargadas e não-verbalizadas

e que a moça no espelho olvidasse de vez
todo delírio de poementar quimeras

poeta, eu?


eu, poeta?

eu que já não me acho e já não me há espaço
nessas velhas palavras que já não me cabem

eu que-em-dente-carne-sangro-me
em resquícios de verves viciadas

essas inocentes palavras
expostas e nuas nas esquinas
enquanto sorvem, bêbadas,
moedas de troca
de um sonho qualquer

essas debochadas palavras
elas que se dão a uns e a outros
permissivas e lascivas
ofegantes de becos e espelhos

elas que se arrastam no lodo e na infâmia
e sempre com a mesma doçura
desvendam aquarelas ao entardecer

e  eu que de longe apenas espio
desaprendida de ser

poeta
eu?

letral

um sonho orgíaco dancei com versos embebidos em mel e sal
palavras ousadas deslizavam em alternância
diante dos meus olhos inquietos de rebuscas antigais


outras tocavam-se 

e arrepios líricos enchiam lágrimas em olhos sedentos

cada palavra, áspera, vã ou pessegal beijava meus lábios
que se queriam cerrados/calados
ou ofertando risos cálidos e claros


invadi-me nuvem aspiral
danças esquizofrênicas
lambendo violinos de rasgantes doçuras
meu corpo desviou-se em orgasmos líricos
desdobrando-me prazer letrais


e as palavras que eu desejei em suspiros gráficos?
ocultavam-se em risos brincantes 
provocavam meus anseios de liras ancestrais,
estipulavam desafios, assoprando que gritasse 
num murmúrio agônico minha ânsia tátil

ah! e o poemas diziam-me de faces coradas...
escorriam versos em minha epiderme

ah, tocar as palavras 
sentir suas pétalas agudas entranhando se em mim
eu as vi! 
vi suas constâncias artes
estas palavras que não me deixam
tautologias percorrentes
e num poetar ainda que disfarçadas
insurgindo-se pois têm vidas estas palavras
 

e gritei re-afirmando que se ocultem
ora, que voltassem para os recônditos dos dizeres da infância
ou aos beijos molhados da adolescência.
não viram que estou por outros caminhos?
 

gargalharam de minhas tolas meiguices
e tive desejos de agarrar e descobrir suas entranhas,
 

mas ressurgiram e insurgem-se semprequando as vejo ali estão cravadas e flutuantes
e mostraram-me seus dentes coloridos a rir-se 
ah, minhas ingênuas desditas...
alternâncias sem pudores entres luz e sombra


e deixei por fim que chegassem a mim.
sussurrantes e irônicas..
 

ser! afoita transformação sem desdizer-me.
gemidos gentis volutando renasceres...
 

toquei a verde face de tuas palavras em rimas cúbicas
deliciei-me com nossos murmúrios ébrios
e descaradamente o poema segredante
timpanou meus sentidos em ácidos delírios


despertar-me em ânsias por chãos de papiro
e orvalhar meus dedos líricos
e num suspiro de verborragias oníricas 

adormecer em meus descaminhos