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Que serventia?

 


apalpa
os desvãos da memória

desvenda
devagar)
as garatujas da terra

torna palavra
musgo moldura das eras

estamos no abismo dos dias
há que se ver
sementes de quês,
habitam o Lá

não são tempos de pétalas
é preciso
um nascedouro de rochas
na pele rígida e fria das pedras
coração - encouraçar

desfia da paisagem
esse fio de distopia
trans-bordando realidade

bêbeda entropia
amniotica maresia

há que se encontrar coragem
desponta logo já - um novo dia

coragem
há que se encontrar

que vem logo ali
um novo dia

engole depressa
teu choro
tua poesia

que serventia?

Tânia Souza

#mulheriodasletras
#poesia
#literaturaMS

fotograma II


fotograma II

Tânia Souza


uma mulher dorme na varanda
no aconchego da rede
o útero o lago o morno abraço
dorme no embalo amniótico da tarde

redemoinhos de agosto
trazem sacis viajantes e ela dorme

no sonho da mulher a tarde arde
louças e panelas dançam sobre a pia
dia à revelia, fina rebeldia
hoje, não tem jantar
e quando lua bonita vier
uma mulher desperta Outra



Do meu livro "Entre as rendas dos ossos e outros sonhos desabitados" Editora Venas Abiertas na 2ª Coleção Mulherio das Letras


Dessas mulheres



dessas mulheres

Por Tânia Souza 

há destas mulheres que carregam nas mãos renúncias

em minúcias, minutos e acalanto
disfarçam pranto
na face tatuam tempo
e as parcas?
as parcas só tecem e tecem

há dessas mulheres que de esguelha dizem:
sou tecida em indefinições
certos temores florescem mesmo sem querer

como eu poderia soprar estes ventos para outros destinos?
ao meio do dia, melancolia já chapiscava de ferrugem 
os tijolos da estrada de amarelo

estou na Júlio de Castilho e não consigo atravessar a avenida
estou na praça e o sol tem um quê de dor e pele sendo devorada
e meus olhos cegos tantos carros

era azul azul o céu da minha infância
eu femínea menina que sonhava
antes que me quebrassem os sonhos

manga doce e podre se enroscava no quintal de terra chã
e o cheiro das manhãs de inocência e febre
invadia devagar as cortinas do dia
caricia fria

nunca sei o que fazer com os braços
e agora era mocinha e já não podia, sei lá o que, porque
tudo já não era coisa de menina
no dia que o dia nasceu vermelho
Não, disse a voz patriarcal em máscara de doçura 
e eu disse tá

tempo tecia desde já litania de despedidas
pés descalços dançando folhas flores era sinfonia

algumas lágrimas eu haveria de chorar
mais vezes do que seria bom

há dessas mulheres que vestem desassossego
derramam nas palavras poesias trincadas
estilhaços

há dessas mulheres
há dessas mulheres que não se sujeitam nunca ao desencanto
dado que no mais obscuro abismo 
reconhecem a fina linha de tecer o dia

e eu sou
uma dessas mulheres
que ainda há

Poetrix - Antologia Mulherio das Letras


O Mulherio das Letras 

O Mulherio das Letras é um coletivo literário feminista que reúne cerca de sete mil escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre outras mulheres ligadas à cadeia criativa e produtiva do livro, no Brasil e no exterior, a fim de dar visibilidade, questionar e ampliar a participação de mulheres no cenário literário.


Tânia Souza e Maria Valéria Rezende
A escritora Maria Valéria Rezende é uma das idealizadoras do coletivo que se articulou a partir de uma pagina no Facebook no ano de 2017. Nesse mesmo ano, ocorreu o primeiro encontro nacional do grupo, de 12 a 15 de outubro de 2017, reunindo mais de 500 mulheres na cidade de João Pessoa, quando foi homenageada a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis. Nos dias 2 a 4 de novembro de 2018, ocorreu o segundo encontro nacional do grupo, na cidade de Guarujá, com homenagem à escritora Patrícia Galvão. O terceiro encontro nacional do coletivo ocorreu entre 1 a 3 de novembro de 2019, na cidade de Natal, e homenageou Nísia Floresta.

Tânia Souza e Tânia Diniz - Haikais e outros minimalismos 
O movimento conta com grupos em nível Nacional, regional (Nordeste) e no exterior (Europa e Estados Unidos). Há grupos estabelecidos nas regiões da Bahia, Baixada Santista, Brasília, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Sul-fluminense, Rio Grande do Sul e São Paulo

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.



O livro Poetrix - Antologia Mulherio das Letras nasceu da união de 21 poetas do Brasil.  O poetrix completou 20 anos em 2019 e neste mesmo ano, foi lançada a Antologia Poetrix 20 anos. Um genero minimalista, mas imenso em possibilidades, foi o escolhido para essa publicação tão especial, lançada no III Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Edição Natal/ RN.  

Na orelha, a poeta e organizadora Aila Magalhães detalhe a escolha do mote: resistência. "Quando valores imprescindíveis a humanidade à humanidade - vida, liberdade, dignidade e esperança estão ameaçados, como ocorre nos dias atuais, e não apenas no nosso país, a poesia nos dá voz . 



Cada escritora, além de temas variados, escolheu uma mulher que por sua luta, sua história nos trouxe honra, dores por suas dores, alegrias por suas conquistas.  Um dos meus trabalhos neste livro foi o poetrix em homenagem a Lídia Baís. 


Arte de William Souza 


Lídia Baís ao espelho
Tânia Souza

Não te perderás, mulher
Em teus olhos de luar
Cores de resistência


Lídia Bais (1900 - 1985, Campo Grande / MS) Foi pintora, musicista, desenhista. Suas obras se apresentam em retratos, alegorias, cenas de gênero e conflitos do ser humano em um trabalho marcado pelo misticismo e traços do Surrealismo. 

Lídia lutou por seu direito de ser artista e enfrentou a família, a sociedade, o estigma da loucura, Também ajudava os necessitados e atuava na proteção de animais abandonados. Ingressou posteriormente na Ordem Terceira de São Francisco.


O Micróbio da Fuzarca é uma das minhas peças favoritas do acervo de Lídia Baís. Para mim, representa a inquietação, a pergunta, o movimento que não se deixa calar. A alma da artista, talvez, com suas contradições e a forte presença do feminino, do ser ou não ser. 

O micróbio da Fuzarca - Lídia Baís