Que serventia?
apalpa
os desvãos da memória
desvenda
devagar)
as garatujas da terra
torna palavra
musgo moldura das eras
estamos no abismo dos dias
há que se ver
sementes de quês,
habitam o Lá
não são tempos de pétalas
é preciso
um nascedouro de rochas
na pele rígida e fria das pedras
coração - encouraçar
desfia da paisagem
esse fio de distopia
trans-bordando realidade
bêbeda entropia
amniotica maresia
há que se encontrar coragem
desponta logo já - um novo dia
coragem
há que se encontrar
que vem logo ali
um novo dia
engole depressa
teu choro
tua poesia
que serventia?
Tânia Souza
fotograma II
fotograma II
Tânia Souza
uma mulher dorme na varanda
no aconchego da rede
o útero o lago o morno abraço
dorme no embalo amniótico da tarde
redemoinhos de agosto
trazem sacis viajantes e ela dorme
no sonho da mulher a tarde arde
louças e panelas dançam sobre a pia
dia à revelia, fina rebeldia
hoje, não tem jantar
e quando lua bonita vier
uma mulher desperta Outra
Do meu livro "Entre as rendas dos ossos e outros sonhos desabitados" Editora Venas Abiertas na 2ª Coleção Mulherio das Letras
de sereias e sonhos
de sereias e sonhos
Tânia Souza
a sereia de pedra rubra tem insônia
- o que é inusitado
passa os dias olhos acordados aclarados
e quando é noite os cílios úmidos de mar querem
se fechar
quer dormir não deve
são as ondas ondas o n d a s o n d a s
o n d e
a n d a m
batem areia, batem pedra, sonham bateia de
espuma e sol
águas verdes ensolaradas caem nos seus olhos
cálidos
e na beirinha da montanha
textura de horizonte aquarelando onirismos
outros
e tem:
passarinho que espia
pássaro de mar que sabe mais mais
- ainda bem que contar não pode -
caranguejos
abusados que andam pelas pedras musgo água onda mar
e
até poeta inventando cousas de areia e além
acontece que ofício de sereia tem encantos de
estrelas
explico: noite e sereia andam juntas
- é de
precisão
tal qual mar pescador pescando estrela do céu
e
de sereia que dorme, não sei não
suas
escamas lantejoulas cegantes
que
sem luar não são neon nem
são
apenas penas
e
nada de mar para sereia de sol insone
sonha
a sereia semente de voos e porosidades de nuvens
e
que pedra rubra rude não é só pedra solidão
[
decerto alguma ancestralidade lhe suspira promessas nos ossos leves]
logo, há
de voar
perdoa
Por Tânia Souza
perdoa quanto te olho não te vejo
eu só(u) anseio silêncio e solidão
há intensidades por demais
eu preciso um pouco de nada
que não seja a vida invadindo
perdoa, que sou sempre a
moça que ama outono
e quando pode, persegue poesias
viver é bonito, pero dói
perdoa as palavras ditas,
e mais ainda as que eu não disse
eu sou de silêncio mais que fala
mas meus afetos são tão amplos
e afoitos em ser
perdoa o café que não fui
o baile que não dancei
aquela conversa que só calei
perdoa também o livro que não escrevi
perdoa o bolo que eu te dei
e o bolo que eu não fiz
perdoa as lágrimas que ainda há pouco eram sorrisos
e as cascas de cebola caramujo onde me escondo
há tristezas tecidas por demais e muitas vezes, é difícil ser
perdoa essas vontades de pé descalço e terra chã,
há cinza e concreto por demais
eu só preciso respirar
perdoa das divagações,
por te perguntar e em seguida esquecer
meu olhar se perde, mas não é desatenção nem escasso amor
é que eu sou assim de dispersão e distração
perdoa por te conversar com neologismos
é que isso sou tão eu
e meu brinquedo-palavra favorito
perdoa-me, que eu também preciso perdoar-me
(e se der, pode um tantinho me amar?)
Um pássaro azul
Por Tânia Souza
Um pássaro azul veio ao meu quintal. Espere, ao quintal não, parou na velha castanheira da calçada e, sentindo o cheiro de leve das plantas que ainda pouco eu molhara, ousou um pouco mais. Era pequeno e buscava nas folhas, um restinho de chuvas.
Um pássaro azul teve sede e venceu o medo. Chegaram logo depois, o verdinho, o pequenino se escondendo entre as folhas e um pardal afoito por coisinhas de terra e chão.
Pensei ter visto um curió, mas talvez tenha sido nostalgia. Os dias andavam ásperos e a tarde estava tão seca que minha garganta rachava em tristezas indizíveis. Eu estava atrasada, mas, ainda assim, juntei água em uma bacia e a eles ofereci, bem no meio do quintal. Quem sabe, isso fosse legal.
E foi, espiei da janela quando eles chegaram. Fiquei contente, se meus olhos estão ardendo, e há poeira, fuligem, asfalto e prédios por todos os lados, se tudo que temos é essa ausência de tudo, foi meu tolo ser que desejou ofertar a eles esse presente. Mesmo sendo esse tão artificial manancial.
Um pássaro azul veio ao meu quintal. Havia uma
bacia com água fresca e o ar tão seco que os olhos choraram apenas por ser.
Teve sede e venceu o medo.
Depois, periquitos, beija-flores e outras criaturinhas aladas estiveram por ali.
E rasgando a tarde bem ao meio, um gavião. Ele
também chegou. Mas não em busca de água ou castanhas. Chegou e logo se foi.
Eu sei quem ele levou.
O pássaro azul nunca mais voltou, os outros, foram se achegando aos poucos, a sede era maior que o medo. Mais tarde, choveu. E quando a chuva caiu, meus olhos pararam de arder, mas havia uma dor rasgando minha garganta e...
E nada mais.
Eu simplesmente me calei e todas aquelas velhas dores sem viço estremeceram em mim e de leve, sussurrei um pedido de perdão ao pássaro azul da tarde.
Um dia e uma noite inteira, choveu. E quando o
sol voltou, logo ao amanhecer, a bacia ainda estava lá.
Tânia Souza
Dessas histórias meio vividas, meio inventadas.
Das palavras e outras pequenas sobrevivências

todos os dias me acorda na madrugada
uma tristeza breve
ainda que pese
e finja-se leve
tristeza d'alguma dor guardada
de nome não dada
me dou bom dia e pergunto:
- o quê?
o que me dói assim
e tem pressa em me dizer
estou aqui
logo ao amanhecer?
que fique ela
dor esquisita/esquecida
n'alguma gaveta do ser
e que se confunda
com dor na garganta,
gastrite
... ecoe músculo triste
ao beijo do dia
me acolhe no espelho
sorriso subversivo
teimando cores de sobreviver
é 2020 e estamos no Brasil
escrevo uma canção de ninar para a dor não dita
enquanto passo um café
Poetrix - Antologia Mulherio das Letras
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| Tânia Souza e Maria Valéria Rezende |
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| Tânia Souza e Tânia Diniz - Haikais e outros minimalismos |
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Na orelha, a poeta e organizadora Aila Magalhães detalhe a escolha do mote: resistência. "Quando valores imprescindíveis a humanidade à humanidade - vida, liberdade, dignidade e esperança estão ameaçados, como ocorre nos dias atuais, e não apenas no nosso país, a poesia nos dá voz .
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| Arte de William Souza |
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| O micróbio da Fuzarca - Lídia Baís |













