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Escritoras de MS lançam livro sobre poesia, memória e violência

 


E a coleção de bolsa voando por aí <3

Para ler a matéria completa, clique AQUI. 



De poéticas e outroras


de poéticas e outroras

#tâniasouza
#mulheriodasletras
#metalinguagem

Que serventia?

 


apalpa
os desvãos da memória

desvenda
devagar)
as garatujas da terra

torna palavra
musgo moldura das eras

estamos no abismo dos dias
há que se ver
sementes de quês,
habitam o Lá

não são tempos de pétalas
é preciso
um nascedouro de rochas
na pele rígida e fria das pedras
coração - encouraçar

desfia da paisagem
esse fio de distopia
trans-bordando realidade

bêbeda entropia
amniotica maresia

há que se encontrar coragem
desponta logo já - um novo dia

coragem
há que se encontrar

que vem logo ali
um novo dia

engole depressa
teu choro
tua poesia

que serventia?

Tânia Souza

#mulheriodasletras
#poesia
#literaturaMS

fotograma II


fotograma II

Tânia Souza


uma mulher dorme na varanda
no aconchego da rede
o útero o lago o morno abraço
dorme no embalo amniótico da tarde

redemoinhos de agosto
trazem sacis viajantes e ela dorme

no sonho da mulher a tarde arde
louças e panelas dançam sobre a pia
dia à revelia, fina rebeldia
hoje, não tem jantar
e quando lua bonita vier
uma mulher desperta Outra



Do meu livro "Entre as rendas dos ossos e outros sonhos desabitados" Editora Venas Abiertas na 2ª Coleção Mulherio das Letras


de sereias e sonhos


de sereias e sonhos

Tânia Souza

 

a sereia de pedra rubra tem insônia

- o que é inusitado

 

passa os dias olhos acordados aclarados

e quando é noite os cílios úmidos de mar querem se fechar

quer dormir não deve

 

são as ondas ondas o n d a s  o n d a s  

o n d e  a n d a m

batem areia, batem pedra, sonham bateia de espuma e sol

águas verdes ensolaradas caem nos seus olhos cálidos

 

e na beirinha da montanha

textura de horizonte aquarelando onirismos outros

e tem:

passarinho que espia

pássaro de mar que sabe mais mais

- ainda bem que contar não pode -

caranguejos abusados que andam pelas pedras musgo água onda mar

e até poeta inventando cousas de areia e além

 

acontece que ofício de sereia tem encantos de estrelas

explico: noite e sereia andam juntas

- é de precisão

tal qual mar pescador pescando estrela do céu

e de sereia que dorme, não sei não

 

suas escamas lantejoulas cegantes

que sem luar não são neon nem

são apenas penas

e nada de mar para sereia de sol insone

 

sonha a sereia semente de voos e porosidades de nuvens

e que pedra rubra rude não é só pedra solidão

[ decerto alguma ancestralidade lhe suspira promessas nos ossos leves]

 

logo, há de voar 

 


perdoa

Por Tânia Souza

 

perdoa quanto te olho não te vejo
eu só(u) anseio silêncio e solidão

há intensidades por demais
eu preciso um pouco de nada
que não seja a vida invadindo

perdoa, que sou sempre a
moça que ama outono
e quando pode, persegue poesias

viver é bonito, pero dói
perdoa as palavras ditas,
e mais ainda as que eu não disse

eu sou de silêncio mais que fala
mas meus afetos são tão amplos
e afoitos em ser

perdoa o café que não fui
o baile que não dancei
aquela conversa que só calei

perdoa também o livro que não escrevi
perdoa o bolo que eu te dei
e o bolo que eu não fiz

perdoa as lágrimas que ainda há pouco eram sorrisos
e as cascas de cebola caramujo onde me escondo
há tristezas tecidas por demais e muitas vezes, é difícil ser

perdoa essas vontades de pé descalço e terra chã,
há cinza e concreto por demais
eu só preciso respirar

perdoa das divagações,
por te perguntar e em seguida esquecer
meu olhar se perde, mas não é desatenção nem escasso amor
é que eu sou assim de dispersão e distração

perdoa por te conversar com neologismos
é que isso sou tão eu
e meu brinquedo-palavra favorito

perdoa-me, que eu também preciso perdoar-me

(e se der, pode um tantinho me amar?)


Um pássaro azul

Por Tânia Souza 

Um pássaro azul veio ao meu quintal. Espere, ao quintal não, parou na velha castanheira da calçada e, sentindo o cheiro de leve das plantas que ainda pouco eu molhara, ousou um pouco mais. Era pequeno e buscava nas folhas, um restinho de chuvas.

Um pássaro azul teve sede e venceu o medo. Chegaram logo depois, o verdinho, o pequenino se escondendo entre as folhas e um pardal afoito por coisinhas de terra e chão.

Pensei ter visto um curió, mas talvez tenha sido nostalgia. Os dias andavam ásperos e a tarde estava tão seca que minha garganta rachava em tristezas indizíveis. Eu estava atrasada, mas, ainda assim, juntei água em uma bacia e a eles ofereci, bem no meio do quintal. Quem sabe, isso fosse legal. 

E foi, espiei da janela quando eles chegaram. Fiquei contente, se meus olhos estão ardendo, e há poeira, fuligem, asfalto e prédios por todos os lados, se tudo que temos é essa ausência de tudo, foi meu tolo ser que desejou ofertar a eles esse presente. Mesmo sendo esse tão artificial manancial.

Um pássaro azul veio ao meu quintal. Havia uma bacia com água fresca e o ar tão seco que os olhos choraram apenas por ser.

Teve sede e venceu o medo.

Depois, periquitos, beija-flores e outras criaturinhas aladas estiveram por ali.

E rasgando a tarde bem ao meio, um gavião. Ele também chegou. Mas não em busca de água ou castanhas. Chegou e logo se foi.

Eu sei quem ele levou.

O pássaro azul nunca mais voltou, os outros, foram se achegando aos poucos, a sede era maior que o medo. Mais tarde, choveu. E quando a chuva caiu, meus olhos pararam de arder, mas havia uma dor rasgando minha garganta e...

E nada mais.

Eu simplesmente me calei e todas aquelas velhas dores sem viço estremeceram em mim e de leve, sussurrei um pedido de perdão ao pássaro azul da tarde.

Um dia e uma noite inteira, choveu. E quando o sol voltou, logo ao amanhecer, a bacia ainda estava lá.

Tânia Souza

Dessas histórias meio vividas, meio inventadas.


Das palavras e outras pequenas sobrevivências

Poesia de Tânia Souza 

















todos os dias me acorda na madrugada
uma tristeza breve
ainda que pese
e finja-se leve

tristeza d'alguma dor guardada
de nome não dada

me dou bom dia e pergunto:
- o quê?

o que me dói assim
e tem pressa em me dizer
estou aqui
logo ao amanhecer?

que fique ela
dor esquisita/esquecida
n'alguma gaveta do ser
e que se confunda
com dor na garganta, 
gastrite
... ecoe músculo triste

ao beijo do dia
me acolhe no espelho
sorriso subversivo
teimando cores de sobreviver

é 2020 e estamos no Brasil
escrevo uma canção de ninar para a dor não dita
enquanto passo um café





Poetrix - Antologia Mulherio das Letras


O Mulherio das Letras 

O Mulherio das Letras é um coletivo literário feminista que reúne cerca de sete mil escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre outras mulheres ligadas à cadeia criativa e produtiva do livro, no Brasil e no exterior, a fim de dar visibilidade, questionar e ampliar a participação de mulheres no cenário literário.


Tânia Souza e Maria Valéria Rezende
A escritora Maria Valéria Rezende é uma das idealizadoras do coletivo que se articulou a partir de uma pagina no Facebook no ano de 2017. Nesse mesmo ano, ocorreu o primeiro encontro nacional do grupo, de 12 a 15 de outubro de 2017, reunindo mais de 500 mulheres na cidade de João Pessoa, quando foi homenageada a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis. Nos dias 2 a 4 de novembro de 2018, ocorreu o segundo encontro nacional do grupo, na cidade de Guarujá, com homenagem à escritora Patrícia Galvão. O terceiro encontro nacional do coletivo ocorreu entre 1 a 3 de novembro de 2019, na cidade de Natal, e homenageou Nísia Floresta.

Tânia Souza e Tânia Diniz - Haikais e outros minimalismos 
O movimento conta com grupos em nível Nacional, regional (Nordeste) e no exterior (Europa e Estados Unidos). Há grupos estabelecidos nas regiões da Bahia, Baixada Santista, Brasília, Ceará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Sul-fluminense, Rio Grande do Sul e São Paulo

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.



O livro Poetrix - Antologia Mulherio das Letras nasceu da união de 21 poetas do Brasil.  O poetrix completou 20 anos em 2019 e neste mesmo ano, foi lançada a Antologia Poetrix 20 anos. Um genero minimalista, mas imenso em possibilidades, foi o escolhido para essa publicação tão especial, lançada no III Encontro Nacional do Mulherio das Letras - Edição Natal/ RN.  

Na orelha, a poeta e organizadora Aila Magalhães detalhe a escolha do mote: resistência. "Quando valores imprescindíveis a humanidade à humanidade - vida, liberdade, dignidade e esperança estão ameaçados, como ocorre nos dias atuais, e não apenas no nosso país, a poesia nos dá voz . 



Cada escritora, além de temas variados, escolheu uma mulher que por sua luta, sua história nos trouxe honra, dores por suas dores, alegrias por suas conquistas.  Um dos meus trabalhos neste livro foi o poetrix em homenagem a Lídia Baís. 


Arte de William Souza 


Lídia Baís ao espelho
Tânia Souza

Não te perderás, mulher
Em teus olhos de luar
Cores de resistência


Lídia Bais (1900 - 1985, Campo Grande / MS) Foi pintora, musicista, desenhista. Suas obras se apresentam em retratos, alegorias, cenas de gênero e conflitos do ser humano em um trabalho marcado pelo misticismo e traços do Surrealismo. 

Lídia lutou por seu direito de ser artista e enfrentou a família, a sociedade, o estigma da loucura, Também ajudava os necessitados e atuava na proteção de animais abandonados. Ingressou posteriormente na Ordem Terceira de São Francisco.


O Micróbio da Fuzarca é uma das minhas peças favoritas do acervo de Lídia Baís. Para mim, representa a inquietação, a pergunta, o movimento que não se deixa calar. A alma da artista, talvez, com suas contradições e a forte presença do feminino, do ser ou não ser. 

O micróbio da Fuzarca - Lídia Baís


Menina correndo ao poente


Arte - Lucas Zavagli 


Menina correndo ao poente 
Tânia Souza 

canta a cigarra
na poça d'agua 
meu pé mergulha
(disparada)

era tardinha
mãe havia cantado há horas
"vem pra dentro, menina"

mas era tão bom
o meu quintal de sonhar


* da série Cantigas do EntardeSer