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Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar.


       Ana. Um nome simples para uma garota comum, passos ecoando pelas ruas de uma cidade esfumaçada e suja. Ao mundo, a imagem de uma garota que vaga na noite escura e conta outra sina: menina de família, comportada. Ana se arriscando por lugares obscuros. A quase inocência costuma ser um atrativo interessante... Você me olha e vê uma moça que estudou, mas não muito; deduz que vou me casar com um bom rapaz e viver em tédio, que devo ser apenas mais uma Ana e, quem sabe um dia, esposa, mãe, avó. Talvez o que veja seja apenas uma boa menina, com vontade e desejo de se arriscar. Ana quase pecadora.
       Os seus olhos e os olhos do mundo não me vêem: não como uma andarilha; não essa criatura perversa, lasciva, sedenta de sangue e vingança; não como uma moça que se esconde nas sombras; não uma arma. Não como de fato sou.
       Mas é agosto. E devo pagar minha dívida. Agosto tem cheiro de sangue, de carne e desejos inconfessos. Quando agosto chega, desperto em minha sina ancestral. Sinto então os sonhos mais secretos de cada um e meus seios estremecem na ânsia de uma missão que outrora me causou tanta dor. Quando agosto chega, é hora de caçar.
       Meus saltos ecoam na calçada e os olhos mortiços da noite me seguem. Essa cidade tem cheiro de fuligem. Eu gosto do cheiro infecto destas ruas. Mas não devo ficar aqui por mais tempo.

Filho da escuridão








Kjærlighet og smerte - Edvard Munch
 Kjærlighet og smerte - Edvard Munch



Este conto foi escrito como complementação ao conto "Sangue Maldito", de Flávio de Souza.


        Nasci no dia de minha morte! 

        Ah, por que nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?

        Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse.

        A febre corroía-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias.  Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semiconsciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.

        A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.  

        Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.

     Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.

Rancor


Rancor
Um conto de Victor Meloni e Tânia Souza

Dedicado a Henry Evaristo
No quarto escuro, as cortinas moveram-se lentamente enquanto leves respingos negros tocavam o solo de madeira. Na cama, um homem balbuciava em meio a horrendos pesadelos. Uma frase sussurrada entrelaçou sonho e realidade. O lago, mais uma vez o lago e sua superfície negra. Ele se aproximou lentamente. Uma neblina espessa erguia-se em miasmas de madeiras apodrecidas e pedras cobertas por musgos. O tempo todo, sentia-se como se por trás das velhas árvores olhos nefastos o espiassem... No piso de madeira, pequenas poças de água se formavam em direção ao leito. As águas barrentas deixavam sua marca, seu odor nauseante.
— Sr Black....
O homem debateu-se no leito.
— Sr Black... — A voz sussurrava, insistente.— Sr Black, acorde!
Um arrepio de puro horror o percorreu e sentou-se assustado. Sentiu a pele pegajosa de suor. Os murmúrios do sonho ainda permaneciam ao seu ouvido, chamando-o. Ao seu lado, Aimée dormia, ressonando em paz. Há muito tempo Fergus não se levantava no meio da noite, o peito tomado por presságios. A garganta estava seca e em busca de água, caminhou pelo aposento. Saciada a sede, dirigiu-se ao pátio, atravessando-o até a mureta que o circundava.

Armadilha


Armadilha
Por Tânia Souza
Para Celly Borges e Luiz Poleto
Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:
— Conte, o que você fez?
No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:
— Um pouco de água...
Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.
— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.
Esta voz rouquenha que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças não parece minha.  Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar a ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.

Caserna em Sombras


 Caserna 
em 
Sombras

                                                                          Por Tânia Souza

Poderia ser mais um conto das casernas. Poderia...
Mas esta não é apenas uma destas histórias de sombras e medo, também de melancolia e sonhos desperdiçados. Por que lembrá-la se aconteceu há tantos anos? Não seria melhor deixá-la perdida nas memórias falhas dos homens e guardada pelos que repousam infinitamente? No entanto, há certas marcas na alma dos homens que não podem sumir, as histórias então as renovam para que a dor não seja esquecida, para que os mortos - os que dormem e os que andam - sejam honrados e toda injustiça, cobrada até o fim. 


Uma melodia ao alvorecer 

O sol nascera há pouco e podia-se ouvir o clarim chamando, o toque melancólico da alvorada marcava o início da manhã. Na casa de madeira, a luz invadia a janela e uma voz fina e doce cantarolava "... por mais terras que eu percorra não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá...”   a mulher no fogão, sem parar de virar os bolinhos que fritava, sorriu para o menino magro que cantava. O rosto miúdo se levantou e ele disse, olhos brilhantes: mãe, vou ser capitão. No Exército, aquele garoto marcado pela fome teria a chance de mudar uma história de pobreza e privações. O pai, um soldado desaparecido, a mãe na luta diária como lavadeira.
Muitos anos depois, a farda dobrada e engomada, os coturnos brilhantes: o sonho da carreira militar tornara-se real. O período de instruções foi difícil, a hierarquia militar, muitas vezes cruel, entretanto os meses de treinamento no mato forjaram o homem e ele superara o primeiro ano. Pedro Fagundes da Silva. Nome de guerra: Fagundes; já existiam muitos Silvas no quartel. Fora engajado e com a transferência para o Destacamento de São Miguel, o soldo aumentaria, as promoções viriam. Eu vou ser capitão, costumava repetir nos momentos mais difíceis. Essa era sua oração. A Canção do Expedicionário fora seu hino matinal por muitos anos, costumava ainda cantarolar os versos quando a solidão da maturidade perturbava o ar corado de um rosto de menino, onde a barba só se fizera ver pelo uso constante do barbeador.
Onde os anjos não moram

Filho da escuridão


Não deixe de conferir, no blog Fantasia & Terror, do meu amigo , o conto  Sangue Maldito ,  os primeiros instantes de sombra e dor deste filho da escuridão. 


Kjærlighet og smerte - Edvard Munch




Filho da escuridão

Por Tânia Souza


Nasci no dia de minha morte!
Ah, nascer quando a morte é apenas o sono sem sonhos em um repouso eterno? E se pudéssemos escolher? E se você soubesse? E se você se lembrasse? Você escolheria a vida? Ou apenas o sono eterno?
Cada instante deste suplício permanece em minha mente. Quem poderá dizer que se lembra do próprio nascimento? Do instante derradeiro no qual abre os olhos para vida e existir torna-se enfim o seu conflito? Pois eu me lembro e as lembranças desse sono do qual despertei retornam a mim com assombro. No principio havia apenas a escuridão. Um longo e profundo negrume me envolvia enquanto uma febre rubra tomava meus poros. A dor confundia-se com a fome e eu permanecia encolhido em posição fetal, me contorcendo em meio aos sonhos e mistérios de uma existência fantástica. A longa escuridão foi meu berço. As trevas geravam uma nova criatura e o mundo lá fora, em seu estranho frenesi, talvez nem soubesse.  A febre corroia-me as entranhas como se um fogo líquido estivesse passando entre as veias. 
       Alguns momentos haviam sido insuportáveis e lamentei longamente, no limbo da semi-consciência, implorando para permanecer no escuro, implorando pela morte. Mas ela não viria. Não mais. A eterna escuridão continuaria comigo.
A energia pulsando em meu sangue maldito ensinava pelo instinto a razão de uma vida de estranheza, de uma breve existência como um corpo estranho encravado na sociedade em que cresci. A certeza de nunca haver de fato existido foi meu primeiro pensamento. E então gritei.   
Gritei e na dor, despertei enfim. Foi meu salto na escuridão.
Ah, abri meus olhos a um abismo extasiante de prazeres e sombras mórbidas. Meu primeiro impulso foi correr pela noite, mas ao mesmo tempo, sentia-me fraco, sufocado pelas sensações e cores de um mundo novo. Naquela noite, apenas meu lamento longínquo percorreu a escuridão, trêmulo e horrendo. Os insones, os sonhadores, os seres da madrugada arrepiaram-se e encolheram-se, pois pressentiam que algo nefasto estava à solta. Naquele lamento, um mal horrendo se vislumbrava e nada, nada seria como antes.
Desde então eu não sabia, mas não muito longe dali, do alto de uma torre, uma criatura de trevas e horror puro sorriu com ferocidade ao ouvir-me gritar. Estava feito. Era hora de seu legado, da sua herança ser transmitida. Mas não nessa noite, o tempo seria o seu aliado. Seus olhos avermelhados luziram, mas quando viram ao longe um movimento, por algum tempo, esqueceu-me, pois era hora da caça. Não havia espaço para um recém criado quando a fome e o instinto imperam.
Na velha casa, eu tive medo, não o medo comum dos mortais e sim, medo mesclado a necessidade de sobrevivência, quando um cheiro pungente despertou minha atenção, era a fome estava corroendo meu corpo. As malditas lembranças surgiram. Ah, onde ela estaria? Ela que com voz suave afastara meu medo e mais de uma vez, me deu a vida? “Beba, meu filho. Sorva meu sangue e viva. Eu já estou morta, mas você pode viver. Uma vida maldita, mas ainda assim, uma vida.” E eu bebi. Naquele instante o garoto foi embora e com ele toda inocência.
Podia ouvir os cães em volta da casa. Ganidos baixos e chorosos, de fome e pavor indescritível frente à lembrança de algo que desconheciam. Então, eu a vi. Na sala, a um canto, o corpo dela jazia.  Toquei com cuidado a face sem vida. Se pudesse, choraria, mas minhas lágrimas haviam secado, não, a dor de um monstro não suportaria mais ser expressa em lágrimas. Ergui-a nos braços sem esforço algum, ainda que meu corpo fosse miúdo, uma força sobrenatural me animava e a levei para o quarto. Foi a última vez que vi minha mãe, depositei seu corpo sem vida sobre o leito e fechei a porta.
Ela seria vingada.

E eles vieram com o amanhecer - Tânia Souza


E eles vieram com o amanhecer

Tânia Souza

 

Em memória de Henry Evaristo

 

O passado está cheio de fantasmas e monstros reais. Desde a pré-história o homem vive cercado por um mundo que esporadicamente lhe propicia vislumbres de uma natureza que não é a sua e, para além disso, de uma realidade que é muito diversa da que lhe é familiar . (Henry Evaristo – A invasão de Santarez)

 

           Comarca de Bela Vista, 29 de Setembro de 1872

 

Ao muy ilustre amigo Taunay,

 

Estimo que estejas bem. Eis que, enfim, tenho a coragem para lhe enviar estas escritas quase arquivadas pelo tempo. Jamais os homens que compartilham a morte e a vida devem ser esquecidos por seus iguais. Além dos anos de treinamento militar, o amor pelo escrever e os desgostos da guerra nos uniram. No entanto, a angústia e o pesar nos afastaram. Nos últimos dias da batalha, enquanto seguiam até Laguna, como bem sabe, tomei outros caminhos; caminhos que nem com a guerra, poderia ter previsto. Mesmo temendo seu julgamento, preciso compartilhar o que tenho visto e vivido nestas terras. Mesmo sabendo que me julgarás insano.  Ah, a guerra. Os heróis. As vítimas. Os vitoriosos.

E os desertores...

Por seis longos anos, a morte e a carnificina espreitaram as terras devastadas. E estávamos lá. Conhece minhas motivações. Em busca de aventura e tomado de admiração pela vida na caserna, ingressei nas forças armadas e fiz-me tenente de artilharia, mas, no frenesi da primeira batalha, descobri que não fui talhado para a luta. Deus, misericordioso, bem sabe que mil vezes eu morreria em vez de empunhar a arma, no entanto a sorte, ou o mais nefando azar, estiveram sempre comigo, preservando uma vida que já não merecia ver o sol nascer e se pôr.  Uma vida que ainda hoje, espreita o horror lá fora e teme o amanhecer.

As lembranças, ah, elas voltam e o remorso me atinge constantemente. Preciso parar... preciso de ar. Parece-me que ouço o ribombar dos canhões. A fumaça...

(...)

Creio que o remorso começou a torturar-me constantemente desde quando, pela primeira vez, repousei o corpo de um companheiro morto nas águas transparentes de uma nascente. Deve lembrar-se de quando deitávamos no leito do rio cadáveres dos que pereciam tomados pela peste e assim, a doença chegaria até as populações ribeirinhas. Meu Deus, e eu, que no passado pensara em tornar-me médico para salvar vidas, via-me, constantemente, buscando formas de tomá-las. Meu bom amigo Antônio, consumido pela febre e varíola, o corpo inchado e tomado por pústulas... ah, sua alma merecia um enterro cristão e, no entanto, dei-lhe as águas como última morada e a imagem do corpo sendo levado pelo rio atormentou-me e desde então, meus sonhos foram invadidos por seus olhos negros e tristes, enquanto apontava-me a direção da correnteza. Ainda assim, convivi em certo equilíbrio com o remorso; eu me tornara, a despeito de uma vocação vazia, um homem de armas. Os mortos prosseguiam e a podridão das águas turvas tornara-se comum. Por todos os lados boiavam brasileiros, argentinos, paraguaios... Mesmo mortos, também lutavam enquanto a decomposição que explodia sob o calor do sol se espalhava.

Mas nada, nada me prepararia para a batalha de Acosta Ñu.

Os gritos. As súplicas. E as espadas... Acosta Ñu não deveria ter acontecido, caro amigo, e jamais seremos perdoados por isso. O Conde D’Eu parecia tomado por uma febre terçã... e a piedade que talvez um dia tenha habitado seu coração fora embora com a guerra. Bem sei, havia canhões, alguns soldados da infantaria... mas as crianças... não as crianças.

Ainda ontem, despertei de um pesadelo sombrio, mas acordar não significa estar livre. Sob as sombras da noite, aqueles olhos vagam em meu quarto e mesmo acordado, ainda posso ouvir os lamentos e o som dos sabres caiando sobre pescoços infantes.

Mas, há mais, muito mais. Foi em Acosta Ñu que Os senti pela vez primeira. Enquanto guerreávamos, o cheiro da morte e dor empesteara os ares como nunca dantes aquelas terras viram.  A fome de sangue, a dor dos que matavam e morriam sem saber o porquê. Ali, no fervor pútrido da batalha, o ar espalhando o odor da carne queimada das mães e dos sobreviventes, ali em meio ao vapor e as dores da luta, conheci o inferno. O reino do maligno estava entre nós.

E um mal mais antigo que o homem, deleitando-se com o sangue dos inocentes, renascia.

(...)

 

Acosta Ñu. Todas aquelas crianças, Taunay, como tivemos coragem? Ainda me lembro de um pequenino, implorando piedade, agarrado as pernas do comandante.  Alguns segurando as barras de madeira como se fossem armas. Brincando de guerra, os rostos miúdos pintados a carvão. O grito dos que pereciam consumidos pelas chamas e as espadas certeiras sobre pescoços dos meninos encolhidos em seus próprios braços. E então, estava acabado. Nem feridos, nem sobreviventes, todos deveriam ser mortos e os que a espada e as chamas não devoraram, a fome, a dor e a privação o fariam. Jamais a guerra deixou minh’alma. E finalmente, saberá o que me levou para outros caminhos, distante de Laguna.

Quando o alto comando partiu, eu fiquei nas cercanias de Acosta Ñu. Vi quando o silêncio chegou, espantando o cheiro de morte putrefação. A dor foi então tão opressiva que muitos homens choraram; os guaicurus, estes valentes que ali estiveram conosco entoaram cantos sagrados, enquanto outros soldados simplesmente fugiram, perdidos pela mata.  Não, não há gloria na dor.

Perseguidos por aquele silêncio implacável que impedia as brisas e calava os pássaros, voltamos para Bela Vista. Conosco, iam alguns feridos e a travessia seria penosa. O pequeno destacamento estremecia de pavor nas noites escuras, mas era durante o dia que o mal se deleitava. A luz feria nossos olhos e ocasionalmente o delírio tomava forma. A febre e o calor da batalha deixaram-me enfermiço, e muitas vezes, parecia-me que criaturas transparentes como o dia seguiam nossos passos a beira do rio. A água escasseava e todas as nascentes eram suspeitas. Como deve imaginar, a razão aos poucos nos abandonava. A mata parecia espiar-nos e o temor da ira de Deus me torturava.

Foi quando os mortos começaram a despertar.  

(...)

 

Deve estar espantando com o que leu até aqui, mesmo eu, que escrevo a intervalos regulares, espanto-me com minhas palavras. Sim, é verdade que os mortos caminharam. E a calma com que escrevo é o fruto de uma alma perturbada demais para expor a febre que a consumiu e porque não há palavras que descrevam o horror que presenciamos. Havia o calor sufocante. Os insetos nos devoravam e a fumaça que deixávamos para trás insistia em nos seguir.  Transpirávamos e o cheiro da podridão era nossa companhia constante nos dias quentes e nas noites úmidas.

Quando aconteceu pela primeira vez, os nervos doentios e irritadiços já me dominavam. Foi à beira de um riacho alimentado pela chuva, em meio a vários corpos que ladeavam a margem, que ela se levantou. Primeiro, foi o silêncio, os raros pássaros desapareceram e mesmo o vento, calou-se. Apenas um longo e absurdo silêncio.

Das águas escuras e cobertas por moscas a criança ergueu-se, espantando os insetos que há pouco devoravam sua carne. Os cabelos e o corpo estavam cobertos por sangue e barro endurecido, os olhos grandes e vazios destacavam-se em meio à sujeira. Quase como que flutuando, ela se foi. Alguns dos nossos fugiram nesse dia, embrenharam-se nas matas e somente seus gritos de pavor vinham a nós, como se atacados por algo horrível demais para nossa imaginação conceber. Agarrei-me a Deus e atirei nela, mas logo percebi ser inútil. O corpo frágil agitou-se com as balas, mas não se deteve. E em meio ao pavor, aos gritos e a confusão dos cavalos e mulas de carga que se dispersavam, lembrei-me dos olhos tristes de António, apontando-me as águas.

E de algum modo, eu soube de nossa culpa.

Confesso, neste momento, apenas a lembrança daquele pavor me envolve e desejo parar de escrever, sair, esquecer.

(...)

 

Novamente, lhe escrevo. Como lhe disse, desejo fugir, mas isso já não me é permitido. Firmo o ouvido. Sim, posso ouvir os pássaros. Estão por toda parte, não apenas nas árvores, mas também nas gaiolas onde os guardo. A minha sentinela. Com o coração mais calmo, prossigo.

Eles vieram com a força das águas, despertos pelo sabor do sangue derramado. A criança foi a primeira, como se os demônios soubessem e gargalhassem do pavor e do remorso que me atingia. Mas depois, outros seguiam com ela. Corpos quase destruídos erguiam-se e seguiam para a mata. Já não dormíamos e a certeza de que em breve voltariam para nos matar nos guiava. O maligno enfim estaria reinando na terra? Estávamos todos mortos e ali, o inferno de nossa eternidade.

Mas a verdade é que os mortos estavam sendo despertados e rastejavam movidos por uma força desconhecida. Mas por que e por quem, isso ainda não sabíamos. Para tentar manter nossa afectada sanidade, nos convencíamos de que fora um embuste de sobreviventes em busca de proteção na mata. A viagem tornara-se cada vez mais penosa, havia fome e feridos entre nós, além do horror indizível do que presenciávamos.

            Até que um terror maior sobreveio.

 (...)

Talvez agora possa entender, meu valoroso amigo, as razões deste que vos fala. Algumas ações são tão hediondas que o homem comum não poderia jamais presenciar. Tampouco realizar sem mutilar-se eternamente. E se sobrevivo até aqui, foi para expiar nossos atos mais pecaminosos. Nossos crimes da guerra.

Numa manhã ensolarada, cavalgávamos quando, de repente, os animais pararam. O silêncio tornou-se quase concreto e a angústia feria-nos.

E então, eles vieram.

Senti, em meio ao mormaço sufocante, a força do ar movendo-se junto a mim, e ao meu lado, um soldado gritou. A garganta dilacerada pode dentes invisíveis, deixou a mostra, por instantes, os órgãos internos, e o sangue espalhou-se no ar antes que toda carne e ossos de que era feito desaparecerem, mastigadas furiosamente em poucos segundos.

Demônios. Demônios sem forma, demônios invisíveis, demônios devoradores de homens e de almas; o inferno finalmente viera se estabelecer na terra. Preparei-me para rezar quando um som melancólico de um chifre de boi sendo soprado invadiu a planície e um índio guaicuru, montando na lateral do seu cavalo como tão bem faziam nos ataques, arrancou-me do estupor. Sua lança feriu a coisa disforme que já devorava meu cavalo. Cai no chão úmido e ele jogou um poncho sobre mim.

Três de nós já haviam perecido quando o guaicuru gritou que nos cobríssemos até que eles se fossem. Eu reconheci o guerreiro e tomado pelo pavor, obedeci. Tolo, sentia-me como as crianças que há poucos dias, encolhidas nos próprios braços, aguardavam a morte, mas, mais uma vez, ela não veio a mim. Ali, no escuro protetor do tecido úmido e malcheiroso, ouvi o grito dos que fugiam desesperados. Enrolado na escuridão morna, sentindo meu corpo desidratar-se de calor e medo, devo ter perdido os sentidos. Despertei com os empurrões do índio.

A noite viera e com ela, uma trégua. O que quer que nos perseguira naqueles dias não esperaria mais. A guerra não havia terminado.

O valente guaicuru partiu ainda naquela noite. Antes de ir, chamou a mim e a mais alguns dos companheiros que sobreviveram e disse-nos que temêssemos sempre o silêncio. E os dias. Que a noite, enquanto houvesse sombra, eles não viriam. E que buscássemos na escuridão, a proteção;

Quis saber quem eram, mas nunca compreendi exatamente o que me disse o jovem. Todavia, entendi que, quando o sangue dos inocentes desceu pelas planícies do cerrado, embriagou as nascentes e cobriu de vergonha os morros e cerros, desceu também até as profundas cavernas e despertou os “nandí-vevê-co’ê,” ou "o vazio que pode voar ao amanhecer”. Estas criaturas tão antigas eram velhas conhecidas dos índios que, mesmo em tempos de paz, evitavam as cavernas sagradas para não despertá-las, buscavam em símbolos herméticos, afastar o mal. Um horror sem nome que os anos adormeceram, no entanto, as correntezas levaram, por rios subterrâneos e caminhos ocultos, o cheiro da morte até eles e por isso, voltaram. De alguma forma, ele pensava em reunir os sábios das tribos para detê-las. O som do chifre de ossos poderia ser um caminho, assim como a bênção da escuridão e as complicadas geometrias de sua tribo.

Fiz do poncho a minha arma e proteção. Pensava talvez que fosse uma ilusão, ainda assim, agarrava-me a escuridão protetora. Naquela última viagem, perdemos mais companheiros a cada ataque e, quando a noite chegava, mais um desertava até que, por fim, apenas eu e quatro feridos chegamos ao forte de Bela Vista. Parece que vagamos por muito tempo. Solano Lopez já havia perecido, mas eu sabia que a guerra não havia acabado. Chamaram-nos de loucos. Doentes da guerra. Desertores. E por algum tempo, temi que estivessem com a razão, desejei que estivessem com a razão.

Ah, a guerra! E o poder do seu chamado.

Para os amigos e parentes eu estava perdido pelos horrores da Guerra da Tríplice Aliança. E eles tinham razão, caro Taunay, o que me restou da sanidade, estraçalhou-se com os fatos que sobrevieram-me. Escrevo-lhe, pois sei que o ilustre amigo, sabedor dos horrores que vivemos, poderá compreender minha dor. Quando enfim o conflito foi dado como encerrado, não pude partir.

Acosta Ñu...

O silêncio que precede os “nandí-vevê-co’ê”...

As crianças...

Não, era meu dever ficar. Em um pequeno rancho nas cercanias de Bela Vista, estabeleci moradia e dediquei-me então, a um projeto particular. Bem próximo de minhas terras, uma lagoa azul, onde desembocam minúsculas cachoeiras de rara e azul beleza. Para acalmar os meus, disse que me recolhia para escrever as memórias da guerra.

            Pensaram então que eu estava em paz, mas a inquietude tem sido minha companheira constante. Agora mesmo, enquanto escrevo, de vez em quando estremeço e suspeito de que há algo lá fora, rondando, espiando, destruindo-me. Não é a noite que eu temo. É o dia que me apavora, o sol, o calor das manhãs iluminadas me enche de pavor.  Por que sei o que a luz pode trazer.

(...)

 

Os guaicurus vieram ter comigo. Eu caminhava pelos campos, colhendo guavira sempre acompanhado pelo poncho quando ouvi o tropel dos guerreiros montados. Mesmo após tantos anos, me impressiona o porte orgulhoso e a forma como montam de lado, empunhando as lanças pontiagudas e letais. Estremeci ao vê-los, enquanto que na guerra, tê-los ao nosso lado salvou-nos muitas vezes a vida, seus mistérios seguem sendo uma barreira. Eles sabem o que vi e o que desejo. São os guardiões e devem selar os portões.

Mas enquanto os que voam ao amanhecer temerem o escuro, haverá alguma segurança. Há algo que você não sabe, caro amigo. Não apenas por remorso que escolhi estas terras perdidas. As cavernas estão por perto, junto às nascentes cristalinas, sei por onde eles passam. Ousei, acompanhado pelos valentes guaicurus, nas noites enluaradas, espiar as águas e córregos. A boca horrenda de uma delas, quase oculta pela mata, moveu-se sob o luar e eu pude enfim vê-los.

Não é apenas o nome deles que me é difícil pronunciar. Também a aparência que o luar revelou. As asas parecem dilaceradas e pontas agudas saem das unhas e das membranas que as unem. A pele enrugada que os cobrem é translúcida, e todos eles parecem dotados de garras mortais. Mas são os dentes o horror mais indescritível e letal. Não vi olhos, apenas o vazio e as fileiras de dentes circulares na face disforme. O silêncio que os precede é como um véu de névoas encobrindo meus sentidos e a despeito dos dias claros, o escuro da minha alma ameaça vencer-me. Nem sempre sei se as sombras que me envolvem vêm lá de fora ou saem de minha alma impura, corroída pela dor e pelo remorso.

Eles se alimentam de carne, putrefata ou viva.  Entendi enfim os mortos que caminhavam, serviram de alimento enquanto recuperavam as forças. E fomentavam nosso pavor. Eram guiados por eles na segurança que a luz do sol lhes trazia. E também do medo, do pavor e do remorso se alimentam. A cada dia, estão mais fortes e somos todos culpados. Por isso, precisam ser detidos, pois sua força aumenta, não sei se de origem sobrenatural ou de alguma raça quase extinta, eles espreitaram durante séculos e mais uma vez, andam entre nós. Sei que aos poucos, deixarão de temer a noite e então, nada mais poderá detê-los. Sei porque uma noite dessas, eles vieram. Sob um céu salpicado de estrelas, eu repousava na rede, espantando alguns mosquitos, quando o silêncio me assombrou de súbito. Nem mesmo a brisa ou o menor dos insetos ousa interrompê-los. Ainda não ousaram se aproximar, mas o dia está perto. Um arrepio de puro horror me assaltou, não havia nada lá fora além de um silêncio profundo.

           (...)

 

Finalmente, o fizemos.

Explodimos a entrada das cavernas. Os guerreiros montados já não trazem a sabedoria dos mais antigos, mas alguns rituais e armas que guardo da batalha poderiam feri-los, assustá-los talvez a ponto de recuarem para as profundezas... mas selar as cavernas e afastar os tolos que ousarem se aproximar pode ser um caminho.

Por algum tempo, estamos em paz. Creio firmemente que somente o silêncio das armas e o fim das guerras poderiam detê-los. Enquanto houver um campo de batalha e mortos, enquanto o sangue dos inocentes correr pelas planícies, o vazio que voa ao amanhecer encontrará uma forma de voltar.

Não espero que acredite, mas aguardo o poder da dúvida. E que estas palavras sirvam de alerta e testemunho, caso eles voltem.

Aos poucos, eu durmo e uma rotina suave me convida a reescrever meus caminhos. As crianças ainda habitam meus sonhos e lamentam ao meu redor em noites quentes e abafadas. E do horror no coração dos homens não esquecerei. Tampouco, dos seres que as sombras guardam, pois sei que, em algum lugar sob meus pés, eles dormem.

E um dia, podem despertar.

(...)

Flores da Madrugada


            As flores murchavam com o frio da noite! O homem de smoking abriu a porta do carro para o salto agulha, em tom prata, tocar o asfalto e a ruiva descer. Angélica jamais vira mulher tão bonita. “Uma flor para a moça senhor?” Ele olhou para a menina, os ossos da vendedora de flores apareciam sob a roupa e os lábios tremiam. Colocou a mão no bolso, mas foi interrompido. “Não seja tolo mon amour, essa raça prolifera. Guarde seus presentes para mim...” E riu. O moço assentiu para a dama, enquanto Angélica secava uma lágrima. Pensou no pai violento e se encostou à parede esperando as horas passarem. Como as flores, ela murchava. 

           Despertou na madrugada com a dor, o homem de olhos vermelhos a atacava, porém não lutou.  Sorveu com avidez algo quente derramado em seus lábios e o corpo entrou em frenesi. Desmaiando, ouviu “este presente é seu,mon chéri
 
Acordou com a fome e feito bicho, saltou. Numa sala ricamente decorada, o rapaz olhava para ela. Sobre um pequeno divã, a ruiva desmaiada, o pescoço ferido deixava o sangue escorrer pela pele branca, o sapato prata largado no chão. Ele disse apenas ”Beba, minha querida!” E Angélica não pensou duas vezes, cravando os dentes no vermelho quente, sugando até sentir vertigem. O homem se aproximou e, de uma vez, cortou a cabeça da dama. “Nunca se esqueça de terminar o serviço. Essa raça prolifera... não merece nosso dom”. 

Ele sorriu, mostrando os dentes afiados, Angélica sorriu de volta. Um traço cruel no rosto angelical. Sempre fora uma criatura da noite e enfim, encontrara seu lar.
Tânia Souza

Angeline

Angeline

Por Tânia Souza

Ah, os poderes da mente, do medo e do pavor cercam o homem com tais tentáculos que até mesmo o inferno toma forma se o homem assim o crer. Eis o que dizia-me, exaltado, o jovem estudioso que fazia-me companhia. Meus olhos estavam perdidos na paisagem alagada, falávamos ainda pouco de um vizinho, conterrâneo que, crendo no sobrenatural, fora tomado pela insanidade. Sim, a mente tem poderes desconhecidos, mas desconhecidos são também os mistérios e as sombras do universo. Ele pareceu perturbar-se com estas  palavras, engolindo o chá e fitando a biblioteca, constrangido com minha resposta. Ah, a juventude! Sim, me vejo nos fios escuros deste doutor menino. Quando jovens, nada nos impede, nada nos limita a não ser a força da vontade, até que n’algum momento nefasto, as sombras irradiam-se, cercam-nos e delas jamais nos recuperamos.

A chuva havia chegado e com ela, os demônios bem o sabem, meus pesadelos. Quando o céu desaba, meus ossos doem como se lâminas estivessem brincando nas sofridas articulações. A chuva pela qual estive esperando finalmente caíra, feroz no início,  a tempestade se foi levando consigo parte da verde paisagem. Mas, como sempre que chove torrencialmente por horas, o nível do rio subia a cada minuto e, com o corpo cansado e tomado pelo peso dos anos, só me restara ver a chuva caindo, impedido de sair. Portanto, eis como chegara até aquele instante, quase sem assunto perante a vivacidade da juventude. Num estado semi-adormecido, perdido na modorra do dia, meus pensamentos voltaram-se há um dia fatídico, quando era ainda jovem e cria que o mundo era meu. Um mundo de lascívia e perdição que tornara-se o caminho para a personificação do mais hediondo mal.

Ofertei-lhe, assim, àquele incrédulo cientista que o destino fizera meu bisneto, um pedaço de minha história, aquela da qual jamais falara, entanto, estivera sempre comigo. Ofertei-lhe um retrato de Angeline.

O beijo


O beijo!

Por Tânia Souza 

Não bani os fatos da memória, são apenas detalhes que vislumbro. O resto perdeu a densidade em meio ao universo sinestésico que vivo. Lembro do cheiro, das vozes, as cores e pulsações. Nada mais. Aquele 13 de abril - dia do beijo - amanheceu cinzento, quando me encaminhei para o calor sufocante das salas e das vozes aglomeradas. Livre enfim, sai tentando desviar da algazarra no corredor. Entre as risonhas feras, a euforia indicava que mais um ritual de passagem iniciava-se naqueles cantos quase escondidos da escola. Mais uma prova que queimaria os sentidos das vitimas em potencial, instigava a turba que bradava e seria lembrada para sempre como a primeira vez em que dois lábios se encontrariam para enfim conhecer o embargado sabor de um beijo. Assim seria.

Aos 17 anos, eu carregava o estranho fardo de nunca ter beijado.



Desconhecia o calor de outra boca, o som de outro coração junto ao meu. A emoção de dividir, compartilhar, viver no enlace de dois lábios. A minha boca era uma boca indecifrada, assim como o era meu coração carente de afetos, amigos... Quis ainda esgueirar-me, na tão conhecida sina de fugir das barreiras humanas. A indiferença dos colegas. A invisibilidade frente ao que eu nem sequer ousava cobiçar. A rejeição. O vazio. A sede por algo que não sabia nomear.

Sementes do mal




Sementes do mal

Por Tânia Souza

Sim, ouçam-me mundanas e damas de vontade duvidosa, ouçam essa que vos fala em púlpito nefasto. Também eu conspurquei meu corpo e minha alma em pecado e devassidão, entanto, tivera comigo nos caminhos de ignomínia e desonra promessas de régia recompensa.

Mãe! Seria a mãe de um príncipe, herdeiro e guia para muitos, edificaria um reino para o rei dos reis, ao meu amado; enfim, na noite onde o silêncio imperava e horrores insinuavam-se entre as árvores, entregaria este tesouro e teria enfim a recompensa. Eu seria rainha.

Tampouco importava a dor que me sangrava por dentro nos últimos dias, podia senti-lo revirando minhas entranhas, ferindo-me com unhas pontiagudas... Meus pensamentos estavam fixos no triunfo. Cercavam-me, em sonhos mórbidos, vultos e portentos; podia senti-los ao meu redor, no cheiro ocre e nauseante surgia e desaparecia conforme a dor voltava.

Eis então, era chegada a hora. Gritei ao meu amado e mestre que viesse receber a oferenda, o filho esperado, a herança, o caminho da nova era. Ouviu a Terra uma ópera crescente, como orquestra insana surgiam lamentos profundos, cantigas mórbidas. Uma fina camada de suor cobria minha pele quase translúcida, entre gemidos de dor e espera, vislumbrava faces cruéis nos recantos sombrios da casa abandonada onde, como animal, eu procurara abrigo. Eram vultos, brisas mórbidas, mãos que se estendiam em jubilo e depois se recolhiam. Faltava-me às vezes o ar perante a densa angústia que se espalhava, ouvia então o choro de anjos meninos e sentia como se fora ali, entre as paredes mofadas, o nascer de toda solidão

A dor tornara-se insuportável e expeli uma massa disforme de carne e massa que grunhia e debatia-se. Vi com horror a espinha retorcida, a pele disforme e nebulosa, de um rosto sem face abriu-se um único olho, amarelo e purulento, tomado pelas mais doentias infecções, entre as pálpebras necrosadas surgiam dentes lisos e brilhantes. Arfei, a voz faltou-me e com as poucas forças que me restavam tentei afastar-me da criatura que lançava na noite vagidos horripilantes. Arrastando-se pelo chão imundo e sangrento, debatia-se em busca de ar, balançando inúmeros braços cobertos por pêlos cinza. Ah, o horror. Eis que chegara o rei e seu séquito e minha promessa não fora cumprida. Fora eu impura para tão nobre senhor.

Seu olhar ferveu em ódio e de um movimento brusco, feriu-me com unhas pontiagudas, lacerou meu ventre até que uma mistura de carne e sangue espalhou-se e para delírios e risadas dos convivas, a criaturinha recém parida lançou-se esfomeada aos meus dilacerados membros até ser levada com eles.

Eu fora inutilizada, a mulher em mim morrera para sempre. Este castigo eu merecera por minha inaptidão, sigo viva para cumprir meu destino, suja, maltrapilha, maldita; caminho em busca da noiva perfeita, não fora ainda nesse ventre dilacerado que meu príncipe encontraria nefando acalanto, porém, será no ventre de uma jovem como vós, perdida em eterna noite de sombras, que a semente de meu senhor terá abrigo e, enfim, seu reino será real. 

Carona


Carona


Por Tânia Souza

"Seu futuro será de muita luz!" Disse assim a conhecida cartomante. "Basta seguir a estrada da vida"

"Mas devo seguir a luz?"  ousei perguntar, olhos fixos no espelho da vida.
    

"Eu nada mais posso dizer" e sorriu-me. Estranhamente sorriu e eu acreditei,     acreditei mesmo sabendo que ela me queria longe de seu filho.
 

Segui a estrada em busca do destino, a única que conhecia, a estrada que  cortava a nossa vila todos os dias.
 

"Uma carona, seu moço?"
 

"Pode subir, mocinha."
 

Jamais imaginei que se referisse às luzes do caminhão onde teria roubada a  vida naquela mesma noite, ainda na estrada. Estrada onde agora vago em busca  da luz à mim prometida no espelho da vida.
 

...

"Uma carona?"

O quadro



O quadro

Por Tânia Souza

O barulho da bola estourando se espalhou na sala. Adoro goma de mascar. A tosse sacudiu o peito do velho sentado na poltrona, o peito chiava enquanto eu apenas observava o corpo carcomido pela idade estremecer. Após alguns minutos, a sua mão magra estendeu-se e me chamou: Quantos anos minha filha? A velha pergunta. Vinte, respondi sabendo que meus olhos desmentiriam, mas isso de fato não importava, nunca importa para eles. Mais uma vez me estendeu a mão. Meu chiclete ainda estava doce quando grudei na mesa de mogno ao seu lado e sorri, o sorriso é fundamental para gerar a confiança. Cheguei perto do homem e senti o cheiro dos antibióticos, primeiro a grana vovô... O velho também riu, mas a tosse mais uma vez o sacudiu todo, quando apontou para um envelope sobre a mesa. Peguei sem conferir. A sala estava escura, apenas algumas velas iluminavam o lugar. É bonito aqui, você vive sozinho?, perguntei, enquanto meus saltos plataformas ecoavam no assoalho amadeirado e eu sujava meus dedos nos livros acumulados de poeira. Não te chamei para conversar menina, venha cá, mais uma vez o peito chiou ameaçadoramente. Quanta velharia! Era chegada a hora e, sorrindo, me aproximei do velho. Calma vovô, dei uma risada que perdeu-se nas sombras e nos acessos de tosses que de vez em quando interrompiam o silêncio... Passaram-se algumas horas, na parede, um relógio antigo avisava que a madrugava se anunciava quando fui para os fundos da casa.


Diogo estava parado em frente à parede, um quadro maldito, Christine. O maior tesouro desse cofre é um quadro bizarro... Diogo era bonito, os cabelos levemente grisalhos, o ar de respeito que muitas vezes me salvara. Um advogado decadente, cujos conhecimentos me fizeram a herdeira de milhões. O quadro é realmente bizarro, horripilante seria o termo correto para ele. A primeira vez que senti sua força insana foi quando a moça da galeria veio para avaliação. Ficou parada em frente ao quadro, parecendo hipnotizada, quando me olhou, seus olhos revelavam certo asco, não, não servia para a galeria. A polícia ficou intrigada com a sua morte, mas a presença de duas testemunhas e do exame do corpo revelou que fora apenas acidente, ela tropeçou na dobra do tapete e bateu com a cabeça na mesa, o sangue jorrou ate ser absorvido pelo assoalho amadeirado. Quando os médicos chegaram ela já estava morta. O fato de eu ser apenas uma jovem herdeira, órfã no mundo ajudou a eliminar qualquer suspeitas. Na minha nova situação, o que mais me agrada é o olhar penalizado dos que me cercam. Pobrezinha, sozinha agora. A neta que ele tanto procurou foi encontrada.


O corredor



O corredor
Por Tânia de Souza
No outdoor, enquanto o cowboy fumava, as luzes de néon invadiram as cortinas vulgares. Na penumbra do quarto abafadiço, um ventilador girava suas engrenagens corroídas quando Paulo moveu-se na cama, murmurando, preso aos sonhos. O suor escorria-lhe pelo pescoço. Ainda adormecido, passou a mão na pele pegajosa. A noite estivera abafada, e o ventilador, em sua ladainha espalhava a poeira que os hotéis guardam com o tempo. A música vinda da rua era dolorosamente bela: — For you I'm bleeding... For you, for you…

Fora a canção que o despertara. Ainda naquele estado de sonolência, as mãos procuraram o pequeno celular embaixo do travesseiro. Abriu os olhos e viu no painel azulado que ainda faltavam quinze minutos para às quatro horas. Mais uma vez despertaria e seguiria viagem, deixando aquele hotel. Suspirou, ah como odiava acordar antes do despertador, roubado em quinze minutos do seu sono. Virando a cabeça para o lado, olhos fechados, empurrou os lençóis para longe, evitando pensar no dia que logo se iniciaria. Tentou não sentir a boca ácida, guardando resquícios de whisky , enjoado com o cheiro da maquiagem e do perfume barato de alguma prostituta que lhe fizera companhia parte da noite. Vencendo a náusea, cobriu a cabeça para fugir da luz vinda da janela. A canção havia desaparecido apesar da melodia ainda ecoar.

O herdeiro


O herdeiro

Por Tânia Souza

E ele disse: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. ”
Mateus 4:9


Do alto de sua torre, Ultor observava o reino, sua herança maldita a cobrir-se de fumaça e trevas. A peste havia chegado e com ela, cumprir-se-ia enfim a promessa feita há vinte anos. Viera através de Ana de Bogna, cozinheira cujo destino sempre fora servir, naquela noite, desviara-se dos guardas para encontrar-se com o namorado num canto escuro de um dos jardins, mas jamais chegara ao encontro, o corpo fora encontrado coberto de pústulas que estouravam e formava úlceras; delirante pela febre, ela murmurava, "não, não deixem o herdeiro me pegar, não, os seus dentes..." A ladinha repetiu-se até decidirem averiguar. Esgueirando-se para a torre, tomados de medo e raiva, os homens foram recebidos com um olhar calmo por aquele ser assombroso. As ratazanas guinchavam desesperadamente, mas as mãos finas tocaram o pelo asqueroso e elas calaram-se; pela primeira vez, alguém ouvia a voz de Ultor. "Está feito", ele disse e mais uma vez, calou-se. A partir deste dia o caos e a morte chegaram ao reino, a peste espalhara-se e já não havia lugar para enterrar os mortos, que iam sendo queimados para evitar maiores contágios. O céu tingiu-se de vermelho e um cheiro ocre espalhou-se.

Promessa


As rodas da carruagem saltavam sobre as ruas e feriam a neblina da cidade, levando para longe a prova viva de um dos maiores horrores que o homem já cometera. Na janela mais alta de seu palacete, o Conde Lars Ulrich de Rouam fechou as cortinas e voltou-se para sua nova existência, enquanto a carruagem seguia veloz em seu caminho para o interior. Angeline, sua filha, jamais seria vista novamente. A enfermidade súbita a afastara dos poucos amigos, os criados mais próximos jamais saberiam explicar o que acontecera. "Está feito", disse ao pequeno homem que o observava nas sombras.