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Ìtalo Calvino

Tudo que você, leitor, quer é entrar em uma livraria e comprar o livro que procurava, mas quando se reúnem um leitor, uma livraria e os livros, segundo Ítalo Calvino em "Se um viajante em uma noite de inverno." tudo pode acontecer. 

(...)

"Já na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo esta pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os:

Livros Cuja Leitura É Dispensável;

Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura;

Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos;

Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria de Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim.

Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros,

Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço,

Livros Idem Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém,

Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido.

Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler,

Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,

Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,

Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,

Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,

Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,

Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

(Se um viajante numa noite de inverno)

Amo muito tudo isso *.*

Conversa de livros e avós


Conversa de Livros e Avós


— Por que você lê tanto nona?

— Aqui nos livros eu vivo de novo tanta coisa que já passou.

— Então ler é matar uma saudade?

— Também...

— E não quer viver coisas novas?

— Em dias nublados sacio a saudade.

—...?

— Em dias de sol, até de pára-quedas já saltei. Cada linha de um livro tem vida, doa vida, não se importa em dividir-se com tantos e tantos leitores...

— Essa vida ai é diferente dessa real, nona?

— É uma vida que te revela, te ajuda a entender o que você chama de real, cada personagem, cada olhar entre os personagens te ajudam a entender os olhares que você lançou ou lançará.


— Deu vontade de conhecer mais dessa vida, mas tem tanta tarefa, depois quero brincar, acho que nao vou querer escolher entre a vida dos livros e a vida real, nona.

— Essa vida dos livros é um espelho da alma Drica, te mostrando os caminhos e possibilidades de cada escolha que fizer nesses anos que te aguardam.

— Nona...

—...

—  Às vezes quando você lê, e tem os olhos cheios de lágrimas, parece triste, mas depois fica tão feliz, as vezes ri sozinha, eu não entendo bem.

— Você também, Drica, quando tiver os passos vacilantes, os olhos e o coração cheios de um mundo que provou entre lágrimas e risos, poderá viver por estas linhas, o que sua alma gosta, as escolhas que não fez e, por vezes, pensar em como poderia ter sido se fizesse. Um mundo já viveu, e onde vai reencontrar-se nos risos e lágrimas destes personagens, e como eu, amar a literatura pelo que ela tem de melhor...

— O quê Nona? O quê tem de melhor nos livros?

— Gente, Drica! Gente como eu e você, sonhando, sentindo saudades, vivendo e aprendendo que sempre algo de novo pode acontecer. Como agora mesmo estou aprendendo com você.

— Não sei não, nona, parece meio complicado, mas... é como quando a menina da história chuta o bandido e corre e a gente fica tão feliz como se fosse a gente?

— É sim, Drica, isso mesmo.

— Vó...

— Diga, meu anjo, o que é?

— Você me dá um livro?


Ganhei não apenas um, mas vários, e dias depois dessa conversa vovó resolveu viajar com um monte de outras avós e avôs, acho que a culpa, de algum modo, foi minha, mas nunca contei pra ninguém, principalmente para meus tios ciumentos, quando ela voltou com um novo avô, e ficavam os dois, horas lendo juntos, cada um com seu livro, só parando pra um sorriso. Quando tenho saudade da nona, é nos seus livros que mato a saudade, e fico como ela, olhos marejados ao infinito, depois uma felicidade leve me inunda... como um abraço da própria vida.