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Komorebi - ou dos espetáculos que a natureza nos dá


Komorebi - ou dos espetáculos que a natureza nos dá

Tânia Souza


Uma das coisas que eu mais gosto na vida é ver encontro de sol. Sol com chão, sol com árvore, sol com pele, sol descortinando caminho de folhas. Um dia descobri uma palavra em japonês que deu nome ao deslumbre: komorebi.

Escrevo inspirada por saudades e no anseio de dar forma as letras, busquei algumas fotos que mostrassem um pedacinho destes encontros. Todas desejam captar a luz.

Nascente de saudades, de um olhar miúdo, de um passeio de rio, no ano de 2017, aqui em MS. Está foto do rio também uma das minhas fotos preferidas - entre tantas outras favoritas - justamente a foto que me fez parar de fotografar. Foi quando vi a luz do sol, descendo devagar, confundindo-se com neblina, quase tocando a água... Vi minha sorte, alimentei meu olhar, minha alma. Era apenas o milagre da natureza.

A palavra komorebi [木漏れ日] é escrita com os ideogramas de árvore [木] brilho, filtro, vazamento [漏れる] e sol [日]. 




Uma poética de letras para nomear a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores. As outras fotos foram na semana passada ( um dia de julho/2020) na escola onde trabalho, quando estava me preparando para ir para casa reencontrei o sol e as folhas. Despontava em mim uma vontade grande de estender um lençol e só ficar ali, em contemplação, na miudeza de chão sonhando céu.



Komorebi. Nesses dias de isolamento tenho sentido muita saudade de ter um quintal, de andar descalça, de tocar uma árvore... de ver amplidão. De reencontrar o eu.

Paredes, medo, máscaras. Asfalto, fuligem, cimento, fumaça. Isso tudo sufoca. Autoconhecimento também vem com falta. O que me dói enquanto ausência é necessidade. Não, não sou do tipo esportiva aventureira. É questão de contemplação, imersão. Integração.



A foto do Sesc é do Aurélio Vinícius e também a recebi  como instantâneo poético dos pequenos espetáculos carregados no olhar.

Escrevo na corrente das vontades, dos desejos de mais chão de terra, namoro de sol com folha e sossego de brisa. Escrevo em busca da palavra que é luz.



Um pássaro azul

Por Tânia Souza 

Um pássaro azul veio ao meu quintal. Espere, ao quintal não, parou na velha castanheira da calçada e, sentindo o cheiro de leve das plantas que ainda pouco eu molhara, ousou um pouco mais. Era pequeno e buscava nas folhas, um restinho de chuvas.

Um pássaro azul teve sede e venceu o medo. Chegaram logo depois, o verdinho, o pequenino se escondendo entre as folhas e um pardal afoito por coisinhas de terra e chão.

Pensei ter visto um curió, mas talvez tenha sido nostalgia. Os dias andavam ásperos e a tarde estava tão seca que minha garganta rachava em tristezas indizíveis. Eu estava atrasada, mas, ainda assim, juntei água em uma bacia e a eles ofereci, bem no meio do quintal. Quem sabe, isso fosse legal. 

E foi, espiei da janela quando eles chegaram. Fiquei contente, se meus olhos estão ardendo, e há poeira, fuligem, asfalto e prédios por todos os lados, se tudo que temos é essa ausência de tudo, foi meu tolo ser que desejou ofertar a eles esse presente. Mesmo sendo esse tão artificial manancial.

Um pássaro azul veio ao meu quintal. Havia uma bacia com água fresca e o ar tão seco que os olhos choraram apenas por ser.

Teve sede e venceu o medo.

Depois, periquitos, beija-flores e outras criaturinhas aladas estiveram por ali.

E rasgando a tarde bem ao meio, um gavião. Ele também chegou. Mas não em busca de água ou castanhas. Chegou e logo se foi.

Eu sei quem ele levou.

O pássaro azul nunca mais voltou, os outros, foram se achegando aos poucos, a sede era maior que o medo. Mais tarde, choveu. E quando a chuva caiu, meus olhos pararam de arder, mas havia uma dor rasgando minha garganta e...

E nada mais.

Eu simplesmente me calei e todas aquelas velhas dores sem viço estremeceram em mim e de leve, sussurrei um pedido de perdão ao pássaro azul da tarde.

Um dia e uma noite inteira, choveu. E quando o sol voltou, logo ao amanhecer, a bacia ainda estava lá.

Tânia Souza

Dessas histórias meio vividas, meio inventadas.


Komorebi

Crônica de Tânia Souza 



Uma das coisas que eu mais gosto na vida é ver encontro de sol. Sol com chão, sol com árvore, sol com pele... Um dia descobri uma palavra em japonês que deu nome ao deslumbre: komorebi.

A foto  acima é minha tentativa de registrar a luz. Vem na corrente da saudade, um passeio em um rio, no ano de 2017... num rio aqui em MS. É também uma das minhas fotos favoritas -  entre tantas outras favoritas - justamente a foto que me fez parar de fotografar, Foi quando vi a luz do sol, descendo devagar, confundindo-se com neblina, quase tocando a água... Vi minha sorte, alimentei meu olhar, minha alma. Era apenas o milagre da natureza.

Uma das coisas que eu mais gosto na vida é ver encontro de sol. Sol com chão, sol com árvore, sol com pele... Um dia descobri uma palavra em japonês que deu nome ao deslumbre. 

A palavra komorebi [木漏れ日] é escrita com os ideogramas de árvore [木] brilho, filtro, vazamento [漏れる] e sol [日]. 

Uma palavra para a poética da luz do sol filtrada pelas folhas das árvores. 

As outras fotos foram na semana passada ( um dia de julho/2020) na escola onde trabalho, quando estava me preparando para ir para casa reencontrei o sol e as folhas. Bateu uma vontade grande de estender um lençol e só ficar ali, em contemplação. 

Komorebi. Nesses dias de isolamento tenho sentido muita saudade de ter um quintal, de andar descalça, de tocar uma árvore... de ver amplidão. 

Paredes, medo, máscaras. Asfalto, fuligem, cimento, fumaça. Isso tudo sufoca. Autoconhecimento também vem com falta... O que me dói enquanto ausência é necessidade. Não, não sou do tipo esportiva aventureira. É questão de contemplação, imersão. Integração.

Por um futuro com mais chão de terra, namoro de sol com folha e sossego de brisa.


Caminhos

E em algum momento, ela percebeu: as horas passaram rápido demais enquanto olhava para as estrelas mais lejanas; regou como se fossem flores, pedras de rara beleza, pero não nascidas para crescer; acenou com doçura para aves sem pousada... não, não haveria luz, não haveria frutos, nem flores, nem nada.


E então, com preguiça estendeu os tentáculos dos últimos sonhos e foi se embora. 

Era hora de olhar para si.

E nem percebeu, quando, caminhando por estranha estrada, surgiam como pétalas rubras suas próprias asas.


Crônica do eterno retorno ou Carta ao amado amor

Crônica do eterno retorno
ou 
Carta ao amado amor 


Enquanto caminhava pelas ruas poeirentas desta cidade, desejei ter uma câmera para mostrá-la a ti, não sei se gostaria, mas necessito escrever o que vejo, ou para mim mesma, se mandar serão nossas palavras, se guardar serão minhas?... Pertencem-me porque as ouço de modo intenso agora, e Te pertencem porque esteve comigo, ainda que na memória. Engraçado como pensei em ti quando cheguei aqui, sentir-se-ia bem ou detestaria tudo? Sabemos de ambos tão pouco não é, no entanto sei que se aqui estivesses, arderia por um ar condicionado neste primeiro dia, e talvez me abraçasse no segundo, quando um frio desavergonhado chegou sem avisar, ou talvez me emprestasse uma malha com jeito todo teu.. Sei também que me renovo em tolices por perder-me nestes desejos que nunca realizarei. Por hora, caminho contigo.

Não há conforto nesta casa mais velha que o tempo em que existiu, meu querido, os anos lhe foram cruel, e nestes corredores onde ainda ouço nossos risos e gritos de meninices, há um silêncio pegajoso, nos quartos cerrados ao uso, escondem-se aranhas pequeninas que trato de espantar junto com qualquer tolo pensar, de olhos fechados posso re-viver infâncias esquecidas. 

Entre madeira azul sonhei os primeiros sonhos, pesadelos de infância, temi o escuro e sorri muito, guerras de travesseiros entre paredes incompletas, corridas e esconde-esconde, fomos felizes, brigamos, choramos, gargalhamos... Outras épocas, onde o tempo era medido pelos momentos que vivíamos, e o relógio, desconhecido objeto de adultos. Tempo da experiênciação, tu dirias, tempos de ingenuidades, eu poderia responder. Perdida nestas lembranças e saudades de um ti que não me pertence, me deixo embalar por estas cortes de cortinas, esvoaçando tolamente ao som de alguma brisa irrequieta. Adormeço esperando por poesia. 

O que há nas pequenas cidades que amarram as esquinas impedindo-as de renovarem-se? E justamente estes quadros perdidos que nos fazem voltar e sorrir... Pois ali dei um primeiro beijo, roubado ou de bom grado, mesmo sob os olhares atentos por trás de cortinas, pois vizinhos também resistem e nos cuidavam como pais zelosos por novidades nem tão zelosas. Ali senti as agulhas de certo ciúme, ou ali nos perdemos em planos de viagens e abandonos entre amigos. Nas pequenas cidades são ardentes os anseios por vôos e dormentes as certezas de que as asas nem sempre crescerão. Eu voei, mas só aqui me re-encontro. 

Agora percorro meu quarto de menina, paredes, madeiras que reconheço de entalhes, e telhas que contei e reli quando insone ficava. Neste corredor quantas vezes cruzei, na velha cozinha uma sopa fumegante, ah, minha mãe. Em volta da mesa, risos confortantes, ah, meus irmãos, enquanto o pai, ah, meu pai, chegava com o pão macio e quentinho, jantávamos e éramos família. Ainda somos, separados pelos trilheiros da existência, porém sempre unidos por estas paredes que são mais que matéria desde que nelas nos marcamos e vivemos. 

Caminho agora descalça neste imenso quintal, o chão resgata-me, ainda me sinto tola, é claro, mas disfarço ao tocar as árvores que sempre amei, sim, amor de verdade por cada galho, cada tronco retorcido, por cada folha perdida, meus olhos sobem, tenho desejos de segui-los até meus reinos de outrora... Fruta no pé, viagens aos mundos insuperáveis da imaginação entre meus reinos arborizados. Meus amores primeiros, árvores, terra e céu, eu os amei e os tive. Quando os esqueci me perdi? Serão ainda meus em meio à correria dos dias e noites de agora? Que outros descaminhos me aguardam nestes renasceres? Só me resta vivenciá-los... ouvindo a seiva dos troncos sussurrando minha volta. Nas saudades de mim: penso-te.

Nós, que aqui estamos por vós esperamos


"Nós, que aqui estamos por vós esperamos
 

Sonhei-me num cemitério: os túmulos eram azuis, flores multicoloridas estremeciam na brisa e vultos esguios surgiam em alguns cantos... não importava, eles não estavam ali por mim, nem eu por eles... os ipês amarelos derramavam flores e douravam o azul. Talvez eu tenha caminhado numa tela de Van Gogh.
Meus pés estavam descalços, sentia entre os dedos a areia fina, não como na praia, mas como no quintal de minha casa, quando ainda menina brincava e sentia o frescor de Gaia me chamando sob a sombra das árvores mais antigas.  

Eu estava morta e no instante seguinte, eu estava viva. Os vultos, talvez caminhassem cada um em uma tela particular: mansas, intensas, suaves tempestades...  seguiram seus passos, os meus.... ainda esperam.
Tânia Souza 01/11/2009

Outubro-me


Outubro-me

Hoje, leitor que talvez venha, talvez nunca, frente ao texto que agora teço, hoje tens, leitor, palavras de garganta embargada em complexa perplexidade, em tela e teclado vou fugir de mim e me encontrar.
Por vez primeira eis-me aqui, sem disfarces, apenas divagando a face sem retoques que aflora-me e burla do que tão serena finjo ser


Há tantas sombras e tristezas já tão minhas, frente ao espelho eu as vejo e dos lápis negros e toques de pincéis e beijos de batons que espiam-me, gargalham-me murmúrios de ancestral melancolia nestes traços de menina de irmã de tia de professora de mulher de amante de amiga e filha... de apenas verso e poesia.

Não, eis que nestas palavras não tratarei de um conto insólito, de viagens surreais, poesia sombria ou o terror que espreita e espanto em contos inquietantes. Tampouco tens aqui, leitor, minha face menina/mulher/poetisa, da experiência concreta ou retro, dos versos ternos, de tolas nostalgias, de amores vãos e sonhos que desvendam-me em verborrágicas  quimeras. Hoje, apenas palavras em desatenta forma.

É outubro e há na cor da tarde tanto lirismo que reconheço enfim:outubros coisificam meus sentidos. Dos anos cumpridos, fiz mais um. No aniversário dessa moça que me olha do espelho, murmuram verbos não conjugados, sonhos desfeitos e refeitos, vitórias, conquistas, derrotas e eterno recomeço. Escolhas que fiz, outras a vida fez por mim. Lunes era quando o calendário marcou trinta e três, a face no espelho espantou-se, depois riu, ano I, ano II, ano III e assim assim talvez... chama-se viver. É outubro, dia das crianças e nasci assim talvez sempre menina, mas marcado em nostalgia o caminho estendia-me desde sempre.

É outubro e também o mês para se comemorar o dia dos professores.Há o que comemorar nessa tensa e terna e amada e dolorida premissaque de sou ouvida e talvez na palavra com que compartilho/ensino/aprendo exista algum sentido? 

Eis que aprenderei a sobreviver aos outubros... a sobreviver a essa moça/face triste que questiona-me no espelho e diz-me ainda, vai assim ser indecifrada nessa vida

ou 

.... em braços dados em dados incertos de lances e relances seguiremos novos caminhos?

Há um aroma de café espalhando-se pela casa e tantos labirintos, há lá fora esse sol atordoante de outubro e certa brisa irrequieta brinca nos ipês floridos... Quedo-me aqui, palavras - nem mais tão minhas – em íris inusitadas vão. Eu? Apenas vou ali brincar de viver. 

A rainha do inexorável


Talvez seja ela, a morte, a responsável por um dos principais medos e mistérios que a humanidade enfrenta. Na história do ser humano, a morte é a aproximação do inexorável, oprimindo os sentidos e sentimentos. Pode ser temida, ignorada ou desejada. Liberdade ou prisão... O fim de um desperdício ou a concretização de um caminho bem feito. Inesperada, provocada ou procurada. Bela, triste ou violenta. Ser solitária ou compartilhada. Trazer alívio, saudade ou paz

E ainda assim, continua sendo um grande mistério para os seres humanos.  A morte e seus mistérios nos inquietam. E dessa inquietação, tudo se transforma em um instigante gênero, a literatura de terror, de suspense, fantástica, assustadora ou surpreendente. Em outros momentos, é a dor que a tece, a perda, a saudade, a melancolia e a solidão. Então não se trata de medo, mas sim de palavras traduzindo melancolia, beleza, ternura...

Nos textos literários mais diversos, a morte é rainha: muitos a desejaram, dissecaram; outros zombaram, ignoraram, temeram, idealizaram... Alguns, envoltos em misticismo ou ciência, tentaram vencê-la.

Morre-se, é fato: rápida ou lentamente, biológica ou metaforicamente. Pois para morrer, basta apenas... viver! Morre-se, e morrer é como uma tênue fita cortada ao meio, que solta ao vento, separa mundos e sonhos, traz emoções intensas que não são fáceis de entender, de sentir, aceitar ou ainda, querer prosseguir. A literatura, como arte da palavra, conhece os sussurros das épocas, dos homens, da vida e da morte. Morre-se, mas em cada verso, em cada linha, a eternidade se faz. Pois a literatura é vida. 

Você é Emo, Professora?


— Você é Emo, professora?

Creio que só se Machado de Assis em pessoa aparecesse ao meu lado, torcendo ironicamente a pontinha do bigode, minha surpresa teria sido maior. A pergunta foi sussurrada logo após um leve puxão na minha blusa. Desconfiada, respondi o único termo lógico para o momento:

— Não.

Compenetrada, voltei-me para o restante do grupo em círculo (ou circunferência, como preferem alguns), porém a pergunta martelava sem parar na minha mente. Trocávamos nossas experiências com o mundo machadiano, quando surgiu essa questão, e agora eu não conseguia esquecê-la. Emo? Será que me empolguei demais com Bentinho, Capitu e os nomes  rabiscados? Não, não! Sabia que não devia ter confessado chorar ao ler o Seminarista pela primeira vez, foi isso, só pode, mas o que é mesmo um Emo? Emocionado, emocionante, emo... ? Ah! Emotivo, é isso. Deve ser o Seminarista, que memória desse moleque, o Seminarista foi no bimestre passado.

Sacudi meus nada emos cacheados cabelos, e tentei concentrar-me nas discussões na sala. Emo! Eu? Chorona, talvez. Sensível? Seguramente. Mas Emo?

Conversa de livros e avós


Conversa de Livros e Avós


— Por que você lê tanto nona?

— Aqui nos livros eu vivo de novo tanta coisa que já passou.

— Então ler é matar uma saudade?

— Também...

— E não quer viver coisas novas?

— Em dias nublados sacio a saudade.

—...?

— Em dias de sol, até de pára-quedas já saltei. Cada linha de um livro tem vida, doa vida, não se importa em dividir-se com tantos e tantos leitores...

— Essa vida ai é diferente dessa real, nona?

— É uma vida que te revela, te ajuda a entender o que você chama de real, cada personagem, cada olhar entre os personagens te ajudam a entender os olhares que você lançou ou lançará.


— Deu vontade de conhecer mais dessa vida, mas tem tanta tarefa, depois quero brincar, acho que nao vou querer escolher entre a vida dos livros e a vida real, nona.

— Essa vida dos livros é um espelho da alma Drica, te mostrando os caminhos e possibilidades de cada escolha que fizer nesses anos que te aguardam.

— Nona...

—...

—  Às vezes quando você lê, e tem os olhos cheios de lágrimas, parece triste, mas depois fica tão feliz, as vezes ri sozinha, eu não entendo bem.

— Você também, Drica, quando tiver os passos vacilantes, os olhos e o coração cheios de um mundo que provou entre lágrimas e risos, poderá viver por estas linhas, o que sua alma gosta, as escolhas que não fez e, por vezes, pensar em como poderia ter sido se fizesse. Um mundo já viveu, e onde vai reencontrar-se nos risos e lágrimas destes personagens, e como eu, amar a literatura pelo que ela tem de melhor...

— O quê Nona? O quê tem de melhor nos livros?

— Gente, Drica! Gente como eu e você, sonhando, sentindo saudades, vivendo e aprendendo que sempre algo de novo pode acontecer. Como agora mesmo estou aprendendo com você.

— Não sei não, nona, parece meio complicado, mas... é como quando a menina da história chuta o bandido e corre e a gente fica tão feliz como se fosse a gente?

— É sim, Drica, isso mesmo.

— Vó...

— Diga, meu anjo, o que é?

— Você me dá um livro?


Ganhei não apenas um, mas vários, e dias depois dessa conversa vovó resolveu viajar com um monte de outras avós e avôs, acho que a culpa, de algum modo, foi minha, mas nunca contei pra ninguém, principalmente para meus tios ciumentos, quando ela voltou com um novo avô, e ficavam os dois, horas lendo juntos, cada um com seu livro, só parando pra um sorriso. Quando tenho saudade da nona, é nos seus livros que mato a saudade, e fico como ela, olhos marejados ao infinito, depois uma felicidade leve me inunda... como um abraço da própria vida.

Para dias de chuva e outras melancolias Ou quando chorar é uma opção


A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras ditas, ouvidas ou escritas, têm poder de curar...

Para dias de chuva e outras melancolias
Ou quando chorar é uma opção

Tânia Souza

Não chore! Enfrente! Recomece! Ignore! Siga em frente! As coisas vão melhorar!  Erga a cabeça, é hora de recomeçar...

Palavras... algumas mais delicadas, feitas de vocábulos tecidos em abraços e lenços, outras, se fazem ásperas, vestem faces duras e frias e avisam: choro é para engolir. Lágrimas são sinais de fraqueza.

Palavras, palavras, palavras... e toda uma semântica de sobrevivência.

E a menina que teve o azar de nascer com um imenso e grave caso de sensibilidade um dia cresceu e descobriu que ser sensível demais não é uma boa estratégia. Quando a alma está estilhaçada, melhor sobrevive o rosto em máscara.

Depois, a mulher do agora descobriu que chorar é se por em evidência, chorar é permitir acesso ao mais íntimo da dor ou da alegria, e um dia, finalmente, ela abandonou a menina e aprendeu a não chorar. Por que chorar é ser vulnerável e ser vulnerável é... é ser vulnerável.
E isso, as vezes dói.

Então, ela se veste de forte. É seguro, mas extremamente solitário ali, no cantinho secreto onde a sensibilidade insiste em sobreviver. Alguns dias, os ombros doem, há decisões a serem tomadas, pessoas que pedem colo, nãos e sins esperando para serem ditos... ela bem sabe, isso se chama viver. Também sabe que alguns amigos gostam apenas de sorrisos, tristeza pode ser um interessante repelente. Há também os que se alimentam dela, tão opostos e tão iguais. Alguns poucos são para todas as horas, mas que raros são.

Há também algumas pessoas que podem, e gostam, de ferir as outras! E chorar ou não, não vai impedi-las. Mas ainda assim, persiste. Sorria e siga em frente, algumas vezes ela ainda repete o mantra, abismada consigo mesma por ensinar a mesma lição. Saber todas as cores da indiferença ela não sabe, pensa apenas em sobreviver.

Mas um dia, a força não adianta, o sorriso quer se esconder e os olhos não seguram mais. As lágrimas são assim, de certa forma, independentes. As dores guardadas, a indiferença, os resquícios de algumas tristezas são tocados por situações inesperadas. Assim como há vida, há morte. Assim como se está bem, pode ser estar enfermo, triste ou frágil.

E quase com vergonha, ela percebe que nada lhe resta a não ser chorar!

As lágrimas caem. O nariz fica vermelho, a boca inchada. E ela não tem onde se esconder. E o pior? Outras faces com lágrimas esperam por ela, pelo sorriso e pela força dela. Parece terrível. E é! Mas o sorriso se perdeu, ela sabe que velhas palavras soam vazias.

Então, ela descobre que chorar também é uma opção. Para disfarçar a dor, fala de si em terceira pessoa, mas está reaprendendo que lágrimas compartilhadas ainda doem, mas talvez assim, sejam mais fáceis de secar. Pois, por mais que tenha aprendido a esconder, a menina insistiu em sobreviver.

A solidão não é tão bonita quanto nos livros.
A tristeza nem sempre se recolhe em abraços.
Nem todas as lágrimas morrem em beijos.
E nem sempre as palavras, ditas, ouvidas ou escritas, tem poder de curar...

Mas algumas vezes, essas coisas desimportam e de um jeito ou de outro, é preciso continuar.  

Férias?

Será que fantasmas curtem férias? Jogam qualquer coisa na mala que não se vê nem se carrega e sem nem dar adeus aos cantos que assombram vão se embora, estressados com o trânsito e puxando os fantasminhas pelas mãos, segurando mapas e com licença , desculpe, ei... cuidado, meu lençol importado? 

Lá onde vão os fantasmas em suas férias, é frio ou quente?

Deve ter flores.

E os mais sortudos procuram penhascos isolados que nem ecos curtem assombrar.