Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens

Ode a Senhora Morte


já tem noites que você se foi e seu sussurro já quase nem se faz eco
talvez murmúrio, nalgum sonho tecido em resquícios
mas, ainda tem você aqui
por tantos anos, sua mão entrelaçada a minha
eu te amei e te odiei e tive medo medo medo
.
já morri tantas vezes que hoje, de espanto, quase não me movo
em frente ao dia que nasce lá fora e não vejo você aqui
a primeira vez que te vi, morri devagarinho, mas ...
pedacinho de mim se aquietou, conformado e aceitei a sua mão na minha
e você esteve ao meu lado e eu disse, disse Adeus, meu pai amado
adeus, Moacyr.
.
a segunda vez que você chegou, veio sem aviso
apareceu num suspiro mais profundo, uma dor meio de lado e uma risada quase vivida
que o ar nos faltava ao respirar
entrou entre irmãs, enfiou-se no meio do meu lar, no meu sofá, entre ela e eu
não me perguntou nada, nada respondeu
e numa tarde triste, seus braços estavam a minha volta e eu não conseguia entender
perguntando, doendo, doendo a despedida, dela Neide, que sempre nos sorria, nossa alegria;
mesmo assim, com tanta dor, ali você ficou.
e eu te maldisse e te indaguei e não te perdoei mesmo quando você já não estava ali.
.
e eu já não te esquecia, parecia-me que num vento mais afoito, você viria
e eu temia te chamar
ausência que já era presença
trincando pedacinhos de mim em lugares que eu sabia imaginar.
.
a terceira vez, eu já sabia
você chegou de mansinho, talvez lembrasse ainda dos conflitos, desavisos de outrora
veio e sem convite, instalou-se novamente no sofá
convidou minha mãe a navegar e nestes dias de ir e vir
ficou por anos a nos assombrar
e meio assim sem querer, aceitei
e eu nem sabia, mas mesmo  assim, morria devagarinho em sua constante presença
de susto, prece, medo e amor, minha mãe se foi.
aquela de amoroso sorriso, minha Fabriciana, lhe entreguei
você venceu mais uma vez uma luta que eu nem sabia como lutar
minha face era serena, mas eu sabia das pequenas partes minhas que já não se sabiam
.
da quarta vez, você nem tinha ido, quando voltou
aparecia-me em sonhos e pesadelos e sem porquês já era realidade
foi tempestade abrindo portas e janelas, chuva carregada de ventos que interrompe paredes portas e sem dó
levou de minhas mãos minha amada Vera irmã
eu não disse nada
de tão vazio e triste meu coração ficou que as palavras não vieram, silabas salivas de dor
.
e quando vi, minha Cristal te seguiu sem nem se despedir.
.
fiquei assim trincada das pequenas mortes, das despedidas, tatuada
algum sentido procurando
procurando
procurando...
.
esses dias, veio a Vida bater a minha porta toda encharcada de sol e alegrias
sem jeito, convidei-a para um café, desculpei-me por minha falta de assunto
e ficamos caladas por algum tempo no conforto morno da xícara nas mãos
ela prometeu ficar
mas ...
.
verdade é que sua presença esteve tanto tempo comigo
não aprendi a dizer-lhe adeus, pressinto seus olhos, seus longos braços
nem longe nem perto
.
veja, Senhora Morte, que lhe fiz um poema
versos sem requintes, conformados, sem rimas,
poema nem muito azul, nem muito entardecido de poente ou estrela
mas carregado de espanto e saudades, de perplexidades e aceitação
.
leve-o consigo, tem neles pedaços tão vivos de mim, poema de ausências
não lhe espero tão cedo
e se vier, que venha buscar a mim, tomaremos um chá e falaremos destes tempos de agora
como distante outrora
.
é assim, que espero lhe reencontrar




Anya, a Rainha das Sombras


Dedicado aos que partiram, entanto seguem conosco nas lembranças mais ternas

Ah, o amor, este sentimento tão cantado por poetas, sonho de noites solitárias e ilusão que acalenta vidas. Por amor, tantas espadas cantaram e o sangue se derramou; a vida se renova, as esperanças se tornam infindas. Por amor, a vida triunfa e a morte se concretiza. E por amor, a saga da humanidade se desenha em sonhos, tragédias e melodias. Mas esta não é apenas mais uma história de amor. As desventuras de Anya, A bela e Ulrti, O Valente, foram contadas por décadas no repouso das casas, à luz das fogueiras e nas longas noites dos viajantes. Duas criaturas condenadas ao mais profundo amor, duas crianças sonhadoras que vivenciaram um sentimento tão intenso e por ele, desafiaram os deuses por um amor que marcou a natureza, moldando os elementos com a sua intensidade, atravessando eras e espalhando pelo mundo a força desse sentimento. 

Por muitos anos, se algum viajante se aventurasse pela paisagem absurdamente montanhosa a Oeste de Alfrumtt, poderia ainda encontrá-la. Cravada entre as sombras gigantescas e seculares, via-se uma cabana quase oculta entre as rochas monumentais. Naquele cantinho escondido, as Donzelas Sonhadoras viveram por longo tempo. Diferente das outras mulheres, isoladas, porém respeitadas, essas criaturas místicas dançavam em noites mágicas, com cânticos inebriantes e uma profunda ligação com os elementos, eram guias, detentoras de um conhecimento mais antigo que poderiam recordar-se. Rainhas de luz, nasciam predestinas e nas montanhas, encontravam o seu destino. Dos mais simples moradores das vilas a reis e príncipes, a todos elas atendiam. Entanto, a paisagem já não era a mesma, cinzenta e desolada, cercada por árvores mortas, revelavam a passagem de um tenebroso inverno.

Nós, Que Aqui Estamos por Vós Esperamos


 "Nós, Que Aqui Estamos por Vós Esperamos"


O título deste post não foi criado por mim. Em 2000, quando ainda estava na Universidade, pude conhecer e não mais esqueci essa obra especial. Trata-se de umprêmiado documentário brasileiro "Nós que aqui estamos por vós esperamos" foi dirigido por Marcelo Masagão, no ano de 1998. Recebeu Prêmio GNT de renovação da linguagem, Prêmios no 3º Festival de Cinema Nacional de Recife, no 4º Festival Internacional de Documentários de SP e no 17º Festival Internacional do Uruguai. 

Um filme no qual esperança e desalento, lágrimas e risos dançam nos olhos diante da tela, quando o Século XX revela-se nas imagens que crescem junto com trilha sonora composta por Wim Mertens: insano, belo, poético, trágico, moderno, complexo, barroco, comovente e paradoxal, o filme-memória de Marcelo Masagão simplesmente merece ser visto muitas vezes. O título do post vem do filme, parece que o título do filme vem do pórtico de um cemitério da cidade de Paraibuna no interior do Estado de São Paulo, onde se lê a mesma frase. a origem da frase? Não sei, apenas sei que se puder, assista e comova-se perante a humanidade desnuda.
  • Sinopse
    A partir de recortes biográficos reais e ficcionais de pequenos e grandes personagens do mundo, Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos narra a história do século XX. Com 95% de imagens extraídas de arquivos, o filme pretende discutir a banalização da morte e por correspondência direta, da vida.

  • Informações Técnicas 
  • Título: Nós que aqui estamos por vós esperamos 
  • País de Origem:  Brasil 
  • Gênero:  Documentário 
  • Tempo de Duração: 73 minutos 
  • Ano de Lançamento:  1999 
  • Site Oficial: Filmes do Masagão 
  • Estúdio/Distrib.:  Riofilme
  • Direção:  Marcelo Masagão.
*Clique aqui e veja trechos no YouTube.
*Wim Mertens é um compositor belga que preza pela parte minimalista da música clássica. 

Nós, que aqui estamos por vós esperamos


"Nós, que aqui estamos por vós esperamos
 

Sonhei-me num cemitério: os túmulos eram azuis, flores multicoloridas estremeciam na brisa e vultos esguios surgiam em alguns cantos... não importava, eles não estavam ali por mim, nem eu por eles... os ipês amarelos derramavam flores e douravam o azul. Talvez eu tenha caminhado numa tela de Van Gogh.
Meus pés estavam descalços, sentia entre os dedos a areia fina, não como na praia, mas como no quintal de minha casa, quando ainda menina brincava e sentia o frescor de Gaia me chamando sob a sombra das árvores mais antigas.  

Eu estava morta e no instante seguinte, eu estava viva. Os vultos, talvez caminhassem cada um em uma tela particular: mansas, intensas, suaves tempestades...  seguiram seus passos, os meus.... ainda esperam.
Tânia Souza 01/11/2009

E nem dói tanto quanto acordar e não ter você aqui.

E nem dói tanto quanto acordar e não ter você aqui

E as paredes desse quarto são tão pálidas
E esses travesseiros ainda têm o cheiro seu

E nada dói tanto quanto acordar e não ter você aqui
Essa noite foi tão bom eu te sonhei 

E a dor se espalha conforme o sol inunda a janela
E eu lembro foi você que a quis assim, acordando a casa em luz

Sozinha, sem seus passos na cozinha
E um anjo entristecido me olha da parede

E o café amargo, não tem na geladeira nada 
E é bom pois o nada é o que eu sou 

E os minutos do relógio enlouquecido nem sei como vão
E não tem sentido esse pão macio no forno

Sozinha, a mesa não me despertará 
E sei que a fome de mais um dia já não vem



E em seu quarto o vazio das coisas 
E o vazio do que não se via por ali estarem 

E agora faz tanta falta você ocupando o guarda-roupa 
E despedindo-se numa noite iluminada 

E assim se foi e não prometeu que voltaria, 
Sozinha com o escuro da ausência fiquei

E um anjo entristecido me olha da parede
E eu esperei ... te esperei, eu sempre esperei

E assim sozinha a noite eu acordei e não mais adormeci
E sei que não voltarei a ouvir os seus passos na cozinha 

E não adianta o telefone ser tão colorido e vivo
E me lembrar o seu silêncio ele é o símbolo do não 

E as vozes dos amigas me ferem, pois não são você
Sozinha, estou tão sozinha

E sem teus passos no corredor eu passo
E frente ao espelho olhos sombrios

E é fevereiro, quase onze da manhã
Meus cabelos estão tão tristes

E não adianta fazer manha por que não terei os seus carinhos
E o mar é sempre cinza sem o azul dos seus olhos

Eu fico a cada dia mais sem cores só em sombras
Não tem creme de barbear nem sua face em minhas mãos

Não, não tem,
Mas tem a navalha...

E eu fiz a sua barba doce-áspera foi tão bom
E ela já não tinha tanto corte e está no armário lá do fundo

Eu vi quando procurei os postais de Buenos Aires
E sem ar eu ando e meus passos juntos com os seus 

E nós dois riamos até do vento
E naquele vestido vermelho eu fiquei tão menina 

E não tenho mais o som das suas passadas largas
Ainda pareço uma gueixa, mas você se foi

A lamina ainda corta
A minha pele é tão pálida

Ah, não sabia, mas vermelho junto a mim fica tão bonito
E nem dói tanto como acordar sem você...

E se não manchar o piso rubro esse antigo lar vai renascer um dia
E se você vender alguém ainda poderá ser feliz

E agora sei por que você partiu todo esse sangue me dizendo
E só por que eu amei você muito mais que a mim 

E amei a mulher que era quando tive seus olhos fixos em mim 
E nem dói tanto quanto acordar e não ter você aqui.

E finalmente vou dormir num mar vermelho como o vestido que você me deu...
Tânia Souza

de cinza e brisa



de cinza e brisa

e numa tarde azulêncio
cinzas na brisa

são texturas de veludo
desfazendo-se ao tempo

e nas chamas que findaram
solidão no crematório

numa tarde qualquer
o infinito se faz
de cinzas
azul 
e silêncio
nas mãos de uma menina 
brincando de viver

em tantas ternurinhas
o sorriso da morte

Sina

Sina

Um roto andarilho
Pedia-nos a licença
De uns versos contar
Enquanto o navio
No porto aguardava

E frente a espera ociosa
Lúgubre cantilena tomou lugar

Falou-nos o cantador
De mórbida noite
Onde embriagado
Em velha taverna sonhava

Quando ao vento mais forte
Um violinista triste chegou 
Versos tristes a declamar

Era o violinista poeta
Servo da escuridão
E em macabro oficio
Seguia em poemas
De severa desolação


Eis então
Na noite trevosa
Naquela taverna ociosa
O nobre ouvinte
Em debochada ironia
Ironizou mórbida inspiração

Calado o violino
Deu-lhe um sorriso
E em rubro desatino
Lamentou os versos
Que gravei no coração

Gemiam cordas doloridas
E o poeta interrompia-se
E fitando o nobre crítico
Declamava em calma aflição

— Não, não sorrias
Dos meus versos pálidos
Não seja cruel delator
As poesias de sombra vestidas
São uma ode ao horror
Mas vão seguindo a noite
Revestindo-se de amor

Lembra-te do poeta que dizia
Não é para sorrir que se vive
Os murmúrios e lamentos
Que propicia-nos a vida
São prenúncios de eternos sofrimentos

A morte espreita
E nos caminhos que ceifa
Gargalha satisfeita
Tu, que ousas sorrir
Beijarás a lápide fria
Dos teus joelhos 
Vermes se nutrirão
Em torturante angustias
Implorarás por perdão
Quando de tua carne
Não suportar a podridão

O inferno, ó criatura insípida!
Não é de chamas e demônios

Tua sina maldita
É ouvir a eternidade 
Em tumba proscrita
E servir de alimento
Aos rastejantes irmãos

E cada vez que meu verso
Declamar-se sombrio
Aos murmúrios do violino 
Tua sede em gotas se saciará

Esperarás ansioso
Como tantos esperam
Saberás destas lamúrias
Em sangrenta solidão

Túmulo em soturna eternidade
Eis o que a mórbida ceifadora
A ti reservando está
Por tão pródigos dias
Que por esta vida levas

Por eternas eras
Turvos pensamentos
Ao hálito da podridão
Serão teus tormentos

Feita a sombria previsão
O violinista triste partiu
Minha saga meu destino
A ironia minha decidiu
— E desde então sigo a sina
De romper a maldição...

E assim dizendo
Com lágrima sentida
O enrouquecido poeta
Andarilho solitário 
Sumiu na escuridão

— E desde então sigo a sina
De romper a maldição...

— E desde então sigo a sina
De romper a maldição...

...De romper a maldição...

a maldição