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Armadilha


Armadilha
Por Tânia Souza
Para Celly Borges e Luiz Poleto
Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:
— Conte, o que você fez?
No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:
— Um pouco de água...
Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.
— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.
Esta voz rouquenha que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças não parece minha.  Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar a ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.

Instinto


A lua prateada ilumina um rastro de sangue e morte. O lobisomem atacou mais uma vez.

O beijo


O beijo!

Por Tânia Souza 

Não bani os fatos da memória, são apenas detalhes que vislumbro. O resto perdeu a densidade em meio ao universo sinestésico que vivo. Lembro do cheiro, das vozes, as cores e pulsações. Nada mais. Aquele 13 de abril - dia do beijo - amanheceu cinzento, quando me encaminhei para o calor sufocante das salas e das vozes aglomeradas. Livre enfim, sai tentando desviar da algazarra no corredor. Entre as risonhas feras, a euforia indicava que mais um ritual de passagem iniciava-se naqueles cantos quase escondidos da escola. Mais uma prova que queimaria os sentidos das vitimas em potencial, instigava a turba que bradava e seria lembrada para sempre como a primeira vez em que dois lábios se encontrariam para enfim conhecer o embargado sabor de um beijo. Assim seria.

Aos 17 anos, eu carregava o estranho fardo de nunca ter beijado.



Desconhecia o calor de outra boca, o som de outro coração junto ao meu. A emoção de dividir, compartilhar, viver no enlace de dois lábios. A minha boca era uma boca indecifrada, assim como o era meu coração carente de afetos, amigos... Quis ainda esgueirar-me, na tão conhecida sina de fugir das barreiras humanas. A indiferença dos colegas. A invisibilidade frente ao que eu nem sequer ousava cobiçar. A rejeição. O vazio. A sede por algo que não sabia nomear.